sábado, 19 de junho de 2021

Na música 'Vale Tudo' de Tim Maia vale tudo mesmo?


"Vale, vale tudo Vale, vale tudo Vale o que vier Vale o que quiser Só não vale dançar homem com homem Nem mulher com mulher O resto vale". Com certeza você já deve ter ouvido e dançado essa música de Tim Maia, um grande artista brasileiro que fez história. Talvez se Tim cantasse esses versos dessa forma, na íntegra e sem alterações nos dias de hoje, acarretaria vários problemas para ele. No ano de 1990, meses após lançá-la,  o próprio disse que os versos eram limitados. 

Argumentos como "Os tempos de Tim eram diferentes, assim como os costumes da época" não podem ser justificados, uma vez que a homossexualidade sempre existiu; leis contra homofobia estão sendo colocadas em pauta não é de hoje; e o casamento homoafetivo já estava sendo discutido na época em que a canção foi criada. 

Ao lermos a letra, logo inferimos que: tudo é válido, menos a viadagem e a homoafetividade. A letra, desse modo, restringe os comportamentos das pessoas, não deixando que elas tenham determinadas opiniões e liberdades. Vale tudo, desde que esteja dentro da heteronormatividade. 

A música fez enorme sucesso e ainda tem feito nos dias de hoje, mas não há como negligenciar o incômodo que ela pode gerar na comunidade LGBTQIA+ e nos politicamente corretos. Se estivesse vivo e cantasse Vale tudo nos dias atuais, não é que Tim Maia seria enquadrado em crimes de homofobia, mas ele seria criticado e talvez tivesse que mudar a letra. 

O post de hoje tem o intuito de discorrer sobre os seguintes tópicos: por trás da letra de Vale tudo; a letra vista por outro ladonova propaganda do TikTok com a trilha Vale tudo; e Tim seria punido?


Por trás da letra de Vale tudo

Interpretando à grosso modo, tudo é válido, com exceção de ser viado, gay, lésbica ou qualquer outra pessoa da comunidade LGBTQIA+ (Foi o que adiantei na intro desse post). Então, a letra e o título da música não são condizentes. Vale tudo, mas, na prática, não vale tudo tudo, não. 

Dentro desse "vale tudo", existem restrições. Mesmo que a pessoa queira e tenha vontade, ela não poderia avacalhar de forma geral. Vamos definir o que Tim quis dizer com vale o que vier e vale o que quiser agora. A pessoa pode extravasar COM O QUE VIER para ela, seja um caixa 2, agir de foma corrupta, ter duas ou mais mulheres, fazer sexo com três ou mais pessoas e por aí vai... Contanto que, se ela for homem, que não venha um gay apaixonado por ela e, se ela for mulher, que não venha uma lésbica para o seu lado. VALE O QUE QUISER significa que a pessoa pode ser o que quiser, mas dentro da heteronormatividade. Ser viado ou boiola não estão inclusos! 

Levando para o extremo, a pessoa poderia até matar alguém, mas ser gay jamais. Ela poderia cometer delitos e infrações graves, mas não poderia ser ela mesma em sua essência. Seria permitido até meter bala em um 'viadinho', porque isso vale. A homofobia seria permitida, só não vale ser a bicha da vez.

A letra e o título dessa música são hipócritas. O título diz uma coisa e a letra algo totalmente diferente. E há um perigo enorme quando a canção é tão difundida e as pessoas amam cantá-la e dançá-la. É mais que necessário entender e coadunar com as ideias das músicas, antes de cantá-las e dançá-las. Se você não souber o significado do título e da letra da música que curte, o Google e o Letras.mus tem ótimas ferramentas. 


A letra vista por outro lado

No JOVEM JORNALISTA sempre faço questão de mostrar o outro lado da moeda. O blogueiro Jefferson James do blog Fala fera criou um post em que defendia Tim Maia e mostrava um outro lado da letra. Jefferson apresenta dois argumentos: o primeiro tem a ver com o sentido literal da letra; e o segundo com versões que o Tim cantava no início e após o show.

Jefferson diz que a letra somente proíbe de dançar (Ele até coloca esse dançar em caixa alta) homem com homem e mulher com mulher, e que qualquer outra coisa valia.

Sobre o segundo argumento, Jefferson disse que haviam duas versões dessa música. No início do show Tim cantava assim: "Só não vale dançar homem com homem Nem mulher com mulher". Já no final, o cantor dizia que era permitido. Enquanto o backvocal cantava a versão original, Tim corrigia-os, dizendo: "Não, não! Agora está liberado!". Jefferson ainda complementa sua ideia, dizendo que se Tim tivesse algum problema com a comunidade LGBTQIA+ ele não cantaria essa parte da música no show. 

Eu tenho uma contrapergunta para os argumentos de Jefferson: Se Tim Maia era tão irreverente, eloquente, divertido e criativo, porque ele proibiria de homem dançar com homem? Vou deixar essa pergunta em suspenso e vou para o outro tópico desse texto.


Nova propaganda do TikTok com a trilha Vale tudo


No intervalo da final do BBB 21 fui surpreendido com a nova propaganda do TikTok que trazia a trilha sonora da música Vale tudo. Mas não a que já conhecemos e que faz sucesso, e sim uma adaptada, que não gera polêmicas e indícios homofóbicos, abraçando toda e qualquer diversidade. A letra diz o seguinte: "Vale, vale tudo Vale, vale tudo Vale o que vier Vale o que quiser TAMBÉM vale dançar homem com homem E mulher com mulher". E enquanto se canta isso, surgem casais gays e de lésbicas dançando e se divertindo. Assista:



Já pensou que "da hora" seria se essa fosse a versão original da música de Tim Maia?! Não seria preciso Tim fazer aquela cachorrada e brincadeira no final dos seus shows, porque essa, sim, seria a versão original, sem possibilidades de modificações e adaptações. 

Quando se diz que TAMBÉM vale dançar homem com homem é como se isso não precisasse ser proibido, derrubando todo e qualquer tipo de preconceito. O TikTok soube pegar essa vibe, colocando nas pistas de danças também as monas, as bees, os viadinhos e por aí vai... A propaganda tem como mote "mostrar tudo que você mais gosta", subentendendo que os usuários também gostem de ver diversidade no espelho negro, como casais héteros e homos dançando e realizando desafios. 

A aceitação à essa propaganda foi tão grande que ela já conta com quase 2 mil curtidas. Internautas elogiaram-na e esperam que o aplicativo lance a música em versão completa. Eles foram surpreendidos positivamente pelo TikTok ter alterado algumas frases da canção original e ter aberto novas e outras possibilidades. 


Tim seria punido?

Como já falei, Tim poderia não ser enquadrado como homofóbico e nem ser punido. A Lei de Homofobia no Brasil não está sendo levada com seriedade. Além do mais, existem muitas outras músicas - Maria sapatão, Minha sogra parece sapatão, Robocop gay e Rock das "aranha" - que são cantadas sem nenhum problema, principalmente por artistas héteros brancos cis, e que não há nenhum tipo de punição. 

Com Tim punido ou não, fica aí minha reflexão sobre essa música que é um grande clássico nacional. Que possamos entender que na atualidade vale, sim, homem dançar com homem e mulher dançar com mulher. J-J


Por: Emerson Garcia

9 comentários :

  1. Bom dia Emerson. Parabéns pela matéria. Bom sábado.

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  2. Olá, Emerson.
    Eu acredito que se fosse hoje ele já teria mudado a letra com certeza. Como não conheço ele não posso dizer o que ele acreditava ou não, se era só o que se dizia e fazia na época, mas mesmo se fosse algo que ele defendesse mudaria só para não se indispor ou ser acusado.

    Prefácio

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  3. Oi Emerson,
    Não dá para julgar uma pessoa, um fato, um livro, uma obra de arte ou o que quer que seja de uma época em outra época, pois o mundo sempre muda. Não dá para rotular o Imperador Adrianao como pedófilo por amar Antínuo, pois naquela época não existiam restrições de idade! Assim como não dá para dizer que esta música é homofóbica, pois nem existia a palavra homofobia, e se existia não tinha o peso que tem hoje, quando foi escrita.
    Se não soubermos respeitar as épocas, vamos perder muita coisa boa, pois estamos tentando enquadrar um fato passado numa forma do presente.
    Beijos

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  4. Olá obrigada pelo comentário já sigo o blog.
    Há coisas que antigamente se fosse hoje tinham imensos problemas mas isso têm haver com os tempos em que vivemos
    http://retromaggie.blogspot.com/

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  5. Emerson, graças a Deus os tempos mudaram, antes cantavam músicas e soltavam piadas principalmente contra os gays e ninguém dizia nada... Era comum e "normal", sei não viu? Fico imaginando o tanto de gente que escondia a todo custo suas preferências sexuais por medo do preconceito que não tinha dó de ninguém. Bom fim de semana!

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  6. PARABÉNS PELA POSTAGEM!
    Sério, seu texto ficou maravilhoso! Muito interessante a abordagem que colocou.
    Quero respaldar aqui que muitas músicas, a exemplo de Maria Sapatão, são cantadas por membros da comunidade LGBTQIA+ como forma de desmitificar e acabar com essa onda de que os homossexuais são sempre alvos de chacota. Empoderando sempre!Blog Karolini Barbara |Instagram Karolini Barbara

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  7. Uma boa reflexão. Acho que antigamente muita coisa era falada que hoje já vemos diferente. E que bom que os pensamentos vão evoluindo e percebemos que muito do que falávamos podia machucar algumas pessoas.

    www.vivendosentimentos.com.br

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  8. Olá, garoto,

    Olha, numa grande coincidência, eu mencionei justamente o que é dito no post, em conversa que tive com meu marido, depois de ouvirmos a mencionada música. A verdade é que as pessoas - durante muito tempo - se sentiram muito à vontade para impor suas visões preconceituosas e limitadas às outras, especialmente no que se refere à comunidade LGBTQI+.


    Um abraço

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  9. um tapa na cara da sociedade esse seu post
    parabéns! perfeito!

    beijo
    A mina de fé

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