terça-feira, 16 de junho de 2020

Perdi meu avô para o coronavírus


Relutei para escrever esse post. Não gostaria de ser alarmista ou sensacionalista, mas sim de prezar pela veracidade e verdade dos fatos. Sim, perdi meu avô de 84 anos para o coronavírus. Nunca imaginei que alguém da minha família morreria desse mal, mas o fato é que ninguém está livre dele. É com pesar e dor no coração, de um neto que ainda vivencia o luto da perda, que digo isso, não para vangloriar ou explorar a dor, mas para alertar as pessoas: o coronavírus é real, letal e uma verdade; não é uma invenção da mídia e do governo.  

Meu avô viveu seus últimos dias da forma que sempre quis. Ele comia e fazia o que queria. Por sua comorbidade - um problema pulmonar crônico - vivia com um respirador e não saía de casa. Mas, por obra do destino, o coronavírus o atingiu. Atingiu um ser humano que não tinha contato com o mundo exterior e vivia sossegado. Talvez o maior erro das pessoas é acreditar que um simples isolamento social fará ela ser protegida, mas o caso do meu avô mostra que isso é uma inverdade. Não digo que o isolamento social é ineficaz, mas ele não é fator preponderante de segurança.

Há cerca de 25 dias meu avô passou a ter uma gripe fortíssima e febre alta. Queríamos acreditar que fosse um simples "resfriadinho" ou um recado do seu pulmão que as coisas haviam piorado, que a insuficiência pulmonar havia crescido. Queríamos, mas o destino e a vontade de Deus já estavam traçados.

Quando ele começou a apresentar uma piora, contactamos uma ambulância que prestou um serviço exemplar, estabilizando sua pressão e respiração e aplicando doses de remédio. Ele estava consciente. Um médico chegou a perguntar onde ele estava e ele disse claramente "em minha residência". Por três vezes perguntaram também quantos anos ele tinha e ele disse sobriamente: "84 anos". Os médicos o levaram para um hospital muito bom, o Hospital das Forças Armadas (HFA), já que meu avô era um cabo aposentado. 

"Não, não podia ser coronavírus", a família toda pensou. Logo quando chegou ao hospital foi levado para a sala vermelha, pois até então era um caso suspeito de coronavírus e de dengue. Assim, ele fez um teste e, dois dias depois, havia saído o resultado. Uma médica disse que o teste havia dado negativo. Nesse momento ficamos aliviados, pois sabíamos do perigo da doença, ainda mais para uma pessoa que tinha problema pulmonar. Ufa, não era coronavírus. Que alívio. Mas estávamos cientes das suas limitações, principalmente respiratórias.

Foi quando no horário do almoço do outro dia a equipe médica se corrigiu e disse que, na verdade, o teste havia dado positivo. Positivo, cara! O pesadelo havia se tornado realidade! Meu avô estava com coronavírus. A partir daquele momento o jogo havia virado. Em tão pouco tempo, a saúde do meu avô ficou complicadíssima. De um momento de sobriedade, de melhora até, meu avô foi parar na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) na ala dos covid-19.

Sabe, havia uma esperança em mim e na minha família que meu avô brevemente voltaria para a casa, recuperado. Até quando saímos com ele na ambulância, falamos pra ele que em breve, em um ou dois dias, ele estaria de volta. Acreditávamos que era um problema "fácil" de ser administrado. Os médicos estabilizariam seu organismo e dariam um gás de oxigênio e estaria tudo bem. O "cabo Adino" continuaria vivendo da forma que estava vivendo nos últimos tempos: com seu respirador, comendo o que gostava e com sua esposa ao seu lado. Mas, lá no fundo, meu avô sabia que se fosse ao hospital não retornaria mais, daí sua relutância em ir.

O quadro do meu avô só piorou desde que ele foi para o hospital. O coronavírus começou a deteriorar seu organismo a partir de seus pulmões, já debilitados, até chegar aos seus rins. Eles não filtravam mais o sangue do meu avô como deveria. Então, meu avô começou a fazer hemodiálise. Os médicos, portanto, estavam fazendo de tudo para estabilizar a sua saúde, ministrando drogas fortíssimas que não podiam sequer serem citadas. Seu corpo, porém, não respondia ao tratamento. Ele estava cada vez mais sem forças. 

Apesar disso, nossas esperanças nunca deixaram de existir. No caso do "cabo Adino" era somente uma intervenção divina, um milagre mesmo para tirar ele dessa situação. Acreditávamos que ele responderia ao tratamento e que todo o coronavírus seria dissipado. Que sua saúde - ele que estava com apenas 30% de chance de vida - ganharia um "up". Orações e intercessões não faltaram. De amigos, familiares, pastores e de toda igreja. 

Meu avô, em quinze dias, ficou em um tête-à-tête só ele e Deus. Sem família por perto (Nem por vidros). Estava ele ali, seus pensamentos, história de vida, traumas, rejeições... Ele e Deus e, em alguns momentos, os médicos e enfermeiros que cuidaram tão bem dele.

Recebíamos boletins diários do meu avô. O caso era gravíssimo por conta de sua comorbidade. Até que certo dia, por volta de 19 horas o médico que estava acompanhando seu caso nos ligou e disse que era para irmos urgentemente ao hospital. Nem nesse momento quis acreditar no pior. Exerci minha fé e esperança. E se meu avô tivesse evoluído? E se os médicos tivessem resolvido um tratamento mais forte e precisassem da nossa conivência? Não, não queríamos acreditar no pior. 

Quando chegamos ao hospital, eu, meu tio e minha mãe, fomos bem recepcionados pelo médico e pela doutora que estava acompanhando de pertinho o caso do seu Adino. Ela fez um breve resumo do quadro do meu avô, até dizer uma frase protocolar e profissional, por sinal: "O Seu Adino evoluiu para óbito essa noite". Nessa hora o chão de todos caíram sobre nossos pés. Perdi meu avô para o coronavírus. 

Que doença imparável é essa, que deteriora a pessoa aos poucos até ocasionar em sua morte? Que doença é essa, inexplicável, que não tem uma cura, muito menos tratamento? Quando isso irá acabar, meu Deus?!

Os médicos seguem um protocolo. Alguém teria que reconhecer o corpo do meu avô e eu me dispus para isso. Seria a última vez que o veria. Seria uma despedida. Me levantei, corajoso e com forças (Que não sei de onde retirei) e fui com um médico me preparar para reconhecê-lo. Vesti uma calça e uma camisa hospitalar, depois outro avental, três toucas descartáveis, passei álcool em gel nas mãos, depois as enluvei, depois mais álcool em gel e as enluvei pela segunda vez. Também coloquei duas toucas em cada um dos meus pés, duas máscaras descartáveis e um capacete de proteção. Estava pronto para uma guerra. Uma guerra que jamais pensei em enfrentar. Teria a dura missão de reconhecer o meu avô. 

O médico disse para esperar na entrada da UTI dos infectados com covid-19, e assim o fiz. Ele preparou o terreno e me chamou para o reconhecimento do corpo. Meu avô estava dentro de um saco, em uma cama bem no canto da UTI. Ele abriu o saco e pude ver seu rosto. Ele estava irreconhecível: inchado, com machucados na boca e no rosto. Mas era o meu avô, pois o reconheci ao ver sua barba grisalha. No dia que ele foi ser internado, ele comentou comigo que "queria fazer a barba, pois dava uma aparência melhor" - já prevendo que não voltaria do hospital. E na hora eu lembrei disso: meu avô partiu sem fazer a barba! O médico foi muito gentil e compreensivo comigo, me permitindo que eu ficasse o tempo que fosse ao lado do corpo. Por ser também formado em psicologia, ele tem todo o nohall e a sensibilidade desses dolorosos momentos. "Você quer dizer algo pra ele?", me perguntou. Cara, eu queria dizer muitas coisas pra ele, mas só pude dizer: "Ele está em um lugar melhor agora"Eu sabia que ele estava em um lugar melhor, mas não queria acreditar que meu avô partiu da forma que partiu. Ele estava tão irreconhecível porque, de acordo com o médico, essa doença afeta os sistemas da pessoa e faz com que ela inche.

Nunca vi um médico tão sensível à dor humana como esse. No caminho de volta, retirando todos os apetrechos e passando álcool em gel toda hora, ele conversou muito comigo. Me perguntou como era a minha relação com meu avô, se ele era casado... e minhas respostas foram embargadas pois a minha vontade era de chorar. Perdi meu avô para o coronavírus. Para essa doença terrível que nem deixa que nos despeçamos dos nossos ente queridos da forma devida, com toque. Essa doença de efeito devastador, embora invisível. Sim, o coronavírus é real. Perdi meu avô para o coronavírus.

É uma doença tão terrível que não permitiu nem que meu avô tivesse um velório e enterro tradicional. Que não permitiu que ele fosse arrumado dentro de um caixão. Outrossim, meu avô foi enterrado dentro de um saco preto com zíper dentro do caixão e este último foi todo lacrado com papel filme. Não podemos levar flores nem coroa de flores, pois pessoas vitimadas por covid-19 não podem receber isso. Talvez por conta que pode provocar alergias e espirros, entre as pessoas presentes.

Meu avô não teve um velório, mas sim um sepultamento. Estava eu, meu tio e meus dois primos até o final. Apenas 4 pessoas. Nunca imaginaria que não poderia velar meu avô e que as pessoas fossem proibidas de participarem do sepultamento. Mas, se tem algo que me conforta e que o médico me falou é que demos toda a dignidade para o meu avô. Foi ele quem escolheu ser internado. Além disso, meu avô viveu da forma que escolheu, tendo até o último pedido realizado, que era ser enterrado no mesmo jazigo do meu pai. E, por último, não importa a forma que meu avô morreu, mas sim que ele está em um lugar melhor.

Jamais poderia imaginar que meu avô faria parte de uma estatística tão nefasta. Esse post foi para mostrar que o coronavírus é real. Não é lenda. Espero, com fé em Deus, que vocês não passem pelo que tenho passado. É duro, doído. Só o tempo para curar nossas feridas e sarar nossas dores. Perdi meu avô para o coronavírus, mas ele está em um lugar muito melhor que esse. J-J


Por: Emerson Garcia

22 comentários :

  1. Constantemente estou vendo vários entes queridos e amigos sucumbindo a esta doença. Mas também vejo muita negligência. É triste, e sinto muitíssimo por sua perda. Espero realmente que as pessoas tenham uma boa conduta e levem esse assunto a sério.

    Abraço

    Imersão Literária

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  2. Bom dia:- O meu lamento. Totalmente solidário com o seu desgosto. Uma perda irreparável. Que o seu avô descanse em Paz.
    .
    Deixando cumprimentos
    Um miminho 🌹

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  3. Meus pêsames amigo. Que o seu avô descanse em paz no céu. É triste de ver pessoas tão negligentes com essa doença, inclusive o presidente. Cuide-se. Abraço!


    https://lucianootacianopensamentosolto.blogspot.com/

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  4. Puxa vida! Meus sinceros sentimentos! Essa doença é traiçoeira e ninguém está imune ,mesmo em confinamento. Sempre há algo que entra em nossas casas e com ele, pode vir o danado vírus. Triste perda e que bom pelo menos o médico foi tão humano e respeitoso com a dor. Fiquem bem todos vocês. Sinto muito! abraços,chica

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    1. Grato, Chica. Não estamos protegidos nem dentro de casa!

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  5. Acontecimento muito doloroso, receba os meus mais sinceros sentimentos. E, realmente, é de estarrecer a capacidade desse vírus de alcançar as pessoas, mesmo as que se resguardam.

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  6. Meus pêsames, imagino quanto deve ter sido doloroso para você e sua família, por isso sempre falo para quem pode, fiquem em casa e cuidem das pessoas próximas.

    Beijos
    www.pimentadeacucar.com

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    1. Exatamente. Essa deveria ser uma regra inquestionável.

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  7. Testemunho pungente e importante nestes tempos que vivemos e em que muita gente "relaxa" achando que só acontece aos outros. Meus sinceros sentimentos a toda a família. Não é fácil a situação e é primordial alertar e consciencializar todos.

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    1. A questão fica séria, quando percebemos o mal dentro de nossas casas.

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  8. Minhas condolências, Emerson. Que tenha muita força para encarar esse momento.

    Beijo.
    Cores do Vício

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  9. Que tristeza Emerson, sinto muito. Força para você e toda sua família nesse momento tão difícil. :(

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  10. OI Émerson, imagino a sua dor. O post é bem importante sim como alerta, pois muitas pessoas não estão acreditando que possam ser atingidas ou afetadas pelo Coronavírus.Temos que nos cuidar e muito. O isolamento é um grande aliado e uma das maneiras mais efetiva de nos protegermos. Pode até não ser suficiente, mas sem essa medida aí os ricos são maiores ainda.
    Que você e seu familiares se sintam confortados nessa hora.
    beijos
    Chris


    Inventando com a Mamãe / Instagram  / Facebook / Pinterest

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