quarta-feira, 9 de maio de 2018

Chip do embranquecimento: quando a mídia busca atores brancos ou negros tendo em vista o sucesso




Recentemente, a falta de representatividade negra nas atuais produções da Globo formou rodas de discussões e críticas severas à emissora. Primeiro, um post da ex atriz da Casa Samara Felippo, depois a reivindicação de atores de Segundo Sol. Esses fatos me levaram ao seguinte questionamento: existe mesmo a falta de representatividade da raça no canal?

A maioria dos papéis de protagonistas são dedicados à atores de pele branca, mas posso citar casos em que negros ganharam destaque, como Taís Araújo em Da cor do pecado (2004) e Viver a Vida (2009); Camila Pitanga em Cama de gato (2009), Lado a Lado (2012), Babilônia (2015) e Velho Chico (2016); e Lázaro Ramos em Cobras e Lagartos (2006), Duas Caras (2007) e Lado a Lado (2012). Vale ressaltar que atualmente Lázaro Ramos e Taís Araújo estrelam Mister Brau


Mister Brau e Michele.


Mesmo com essa representatividade negra das produções citadas, ainda assim ela é ínfima perto da escalação de atores brancos, principalmente nas atuais produções e nas que estrearão em breve. A principal crítica é que estas deveriam ter atores negros em papéis relevantes, mas o que há é um "embranquecimento dos personagens". Por exemplo: em O outro lado do paraíso os protagonistas tem a pele branca, embora a trama se passe em uma região muito quente; Onde nascem os fortes mesmo que se ambiente no sertão de Pernambuco não tem nenhum ator negro; e Segundo Sol, que se passará na região brasileira mais negra fora da África - Bahia - não possui muitos atores negros no elenco na primeira fase. 

Por que existe o embranquecimento dos personagens? Mesmo sendo obras de ficção, a realidade também é forte e não deveria ser negada. Percebo que a questão não tem a ver com a livre criação dos roteiristas, mas com algo mais grave e nefasto: os produtos devem ter audiência, serem comercializados e vendidos. O que vende mais: uma novela com um casal de protagonistas brancos ou negros? A primeira opção. 

Quando um casal ou ator negro é escalado como protagonista é para dizer: "olha, o negro tem representatividade"; por mera obrigação ou cumprir agenda; por que não tem como escalar atores brancos mesmo; ou por que os atores são conhecidos e bem vistos pelo público nacional e internacional (Vide Lázaro Ramos, Camila Pitanga e Taís Araújo os mais escalados para esses papéis). 

De resto, a presença de negros em novelas tem o único intuito de reforçar paradigmas, estereótipos ou espetacularizar suas dores. Só relembrarmos de Escrava Mãe, em que a escrava Juliana, interpretada por Gabriela Moreyra, sofria como uma condenada; da própria Camila Pitanga em Lado a Lado; ou da primeira Helena negra e será que é a última? protagonizada por Taís Araújo que só passava por tragédias. Em julho de 2015, no texto #somostodosmaju: preconceito racial ou manobra falei da obrigação forçada da mídia de inserir artistas negros nas produções (com grifos):

"A própria mídia, demorou muito para aceitar a negra (e o negro também), e quando aceitava era por obrigação. Uma moça negra na novela, só se fosse empregada doméstica, prostituta ou ladra. Quando admitiu-se uma protagonista negra, a produção não foi aclamada [Viver a Vida]. O grupo de Axé, deveria ter a "loira" e a "morena", mesmo que a "morena" esteja mais para o tom claro. [...] a novela Verdades Secretas tem uma modelo de cor escura, mas parece que é só "pra cobrir elenco". A personagem não tem a sua importância. Aliás, se ela teve alguma, foi a de retratar o estupro no mundo da moda." 


Em Segundo Sol, a inserção de artistas negros na segunda fase  só virá para cobrir elenco. Se realmente a Globo se preocupasse com a representatividade negra escalaria logo de cara um ator negro como protagonista (E eu não falo do Lázaro Ramos, porque acredito que já deu), e não um ator branco. O motivo de ter escalado Emílio Dantas, não foi porque ele tem melanina elevada na pele, muito menos porque se parece com um cantor de Axé da vida real, foi devido ao seu sucesso em A força do querer. Isso reforça o meu pensamento: a Globo está preocupada em fazer com que seus produtos façam sucesso e sejam vendidos. 


Emílio Dantas é o cantor Beto Falcão na próxima novela das 9, Segundo Sol


E não pense que é só a Globo que tem esse posicionamento! A própria RecordTV, atual emissora de Samara Felippo que achincalhou a Vênus Platinada, também (#Hipocrisiaagentevêporaqui). Suas novelas bíblicas, que se passaram em regiões orientais onde o sol é mais quente que o inferno - como Os dez mandamentos e O rico e Lázaro - trouxeram protagonistas branquinhos da cor de leite e pouquíssimos atores negros na trama. O mesmo acontece com Apocalipse e ocorrerá com Jesus, em que o protagonista Dudu Azevedo é branco (E daí que Jesus era moreno? É ficção isso aqui!). 

Em minha opinião, o  problema da falta de representatividade negra nas produções, é mais uma questão mercadológica, que social, de preconceito - até porque, quando convém, a mídia escala um ou outro artista negro. Até mesmo revistas e produções periódicas estampam mais modelos e atores brancos e de olhos azuis em suas capas, que negros. 


Capa do mês da revista Vogue e a modelo Gigi Hadid: em vez do embranquecimento, houve o bronzeamento de brancos. 


Recentemente, por exemplo, a Vogue foi criticada por escurecer a modelo loira, branca e de olhos verdes, Gigi Hadid, em uma de suas capas. A revista respondeu às críticas dizendo que queria dar um "efeito bronzeado" na modelo. Daí pergunto: não era mais sensato fotografar uma modelo de pele bronzeada ou, vou mais além, de pele negra?! Sim, existem modelos negras belíssimas com a pele bronzeada, viva e brilhante. Mas claro que o mercado falou mais alto: capas de revistas com modelos loiras e belas vendem mais, mesmo que o efeito de bronzeamento fique ridículo e artificial! No final, a modelo Gigi Hadid admitiu a falha do periódico, mesmo que isso não mude nada sua relação com a Vogue, continuando a ser a "princesinha" e modelo da capa. Ou seja, um discurso jogado ao vento (com grifos):

“Apesar disso, eu entendo as intenções da Vogue e que não foram executadas corretamente. As reclamações que vocês trouxeram são válidas. Eu quero me desculpar porque minha intenção nunca foi diminuir ou tirar as oportunidades de outras pessoasEspero que isso sirva de exemplo a outras revistas de moda. Existem problemas reais com relação à representatividade na moda, e é nossa responsabilidade comunicá-los para que a indústria seja mais diversificada”.


Em minha opinião, essa situação continuará igual. O problema da falta de representatividade negra na moda, revistas ou produções é de conhecimento de todos, mas ninguém quer mudar isso pois interferirá em interesses mercadológicos e no sucesso de produções e publicações. Repito: quando uma produção ou revista é protagonizada por um ator ou modelo negro, existe um interesse por trás. Quantos será que engoliram o papo de discurso de "representatividade negra e diversidade" da Marvel com o filme Pantera Negra e Capitã Marvel? Mais do que enaltecer um discurso "novo e inovador" o que a empresa cinematográfica anseia é arrecadar cada vez mais (Pantera Negra já faturou 1,185 bilhão de dólares até agora). 


De acordo com uma pesquisa do B9 de 205, menos de 20% dos comerciais contribuem para a equidade de raça no Brasil, sendo que apenas 1% possuem negros protagonistas e 7% negras. I B9


O sucesso de Pantera Negra não se deve pelo amplo elenco de atores negros ou por conta de sua representatividade negra. Nada disso! Mas, sim, porque contou com atores expressivos que estão no auge do sucesso: Lupita Nyong'o (Melhor Atriz Coadjuvante por 12 anos de escravidão); Forest Whitaker (Melhor ator por O último rei da Escócia); Daniel Kaluuya (Que está ótimo em Corra!); Letitia Wright (protagonista do episódio Black Museum de Black Mirror). Não há nenhum ator que não fez jus pelo papel e não suou para estar ali. Os papéis à negros só são entregues para quem lutou muito por isso e se esforçou. Claro que o que há por trás disso é fazer sucesso e arrecadar muito dinheiro em bilheteria.


Elenco de Pantera Negra


A representatividade negra em produções e na mídia não deve ser medida por meritocracia; por qual negro merece o papel ou qual não; para cobrir elenco; com vistas à arrecadar dinheiro, obter sucesso ou audiência, ela deve existir com o único objetivo de equiparar oportunidades com relação aos brancos e para que todos sejam vistos como iguais, como disse Jonas Gomes em junho de 2017 no texto Cota racial faz sentido? (com grifos) J-J

"[...] vamos supor que o jogo do Brasil X Alemanha da Copa do Mundo de 2014 acontecesse até hoje. Como bem sabemos, durante os 90 minutos dessa marcante partida sofremos sete gols e marcamos apenas um, gerando aquele inesquecível placar de 7 a 1. Se esse jogo estivesse acontecendo até hoje interruptamente o placar estaria em 163.080 para os alemães, e apenas 43.488 para o Brasil. Nessa hipótese é obvio que se nada for feito a diferença no placar aumentará e gerará mais desigualdade na partida. [...] insistir que no Brasil não existe preconceito e que todo sucesso deve ser fruto da meritocracia é vendar os olhos para a realidade do país e deixar que [esse] jogo desastroso continue em curso."


Por: Emerson Garcia

10 comentários :

  1. Excelente texto!! Não estou por dentro das novelas da Globo, mas sei que ela é muito seletiva a isso. E apesar de sermos todos negros, somos muito ainda preconceituosos.
    Beijos / Besos
    DMulheresInstagramFanpage

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  2. Eu concordo. E vejo isso já que trabalho na comunicação. Já vi pessoas de revistas famosas falando que uma vez por ano eles colocavam uma capa que fosse pessoas negras para entrar "dentro da cota".. As vezes isso é preconceito da empresa, às vezes da sociedade.. sei lá.. mas infelizmente acho que ainda estamos longe de mudar..

    www.vivendosentimentos.com.br

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    1. Esse seu relato encaixa-se no que disse: a tal da obrigação. E isso é muito ruim e não muda nada, infelizmente.

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  3. É verdade JJ, mas vejo que isso não acontece somente na mídia não. Até mesmo no dia-a-dia você presencia algo, no setor de trabalho, escola e por aí vai não é verdade?

    Um beijo,

    My Pure Style x My Instagram x My Facebook 

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    Respostas
    1. É a mais pura verdade, Fernanda. Obrigado por comentar.

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  4. Tá aí o mal da sociedade em vários aspectos não só esse, visar o lucro em tudo sem se importar com nada :(

    Beijos

    http://www.cherryacessorioseafins.com.br

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  5. Acho que cada enredo pede talentos, independente da cor da pele de qualquer um ...

    clebereldridge.blogspot.com.br

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    1. Obrigado por compartilhar sua opinião, Cleber.
      Abraços!

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  6. Eu adoro a Thais Araújo . Mas é verdade o que falas. As novelas portuguesas acontece o mesmo. Algo que terá de mudar.
    Xoxo from Portugal

    marisasclosetblog.com

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    1. Depois compartilhe como funciona nas novelas portuguesas. Adorarei conhecer mais. Mande por email também: emersongaffonso@gmail.com

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