terça-feira, 27 de junho de 2017

Homossexualidade como doença e homossexuais doentes: Mudar nomenclatura ou retirar da lista de doenças significa mudança de cérebro das pessoas sobre a comunidade LGBTQ+?



Há algum tempo a comunidade LGBTQ+ sofria preconceito social porque a homossexualidade era tratada como doença pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Foi em 1990 que ela foi retirada da lista internacional de doenças (dia 17 de maio  desse ano completou 27 anos da conquista). Antigamente a sociedade empregava o termo homossexualismo, com o sufismo ismo que significa patologia. Hoje homossexualidade - que é o mais correto. Há ainda aqueles que preferem homoafetividade, uma vez que homossexualidade pode referir-se apenas à relações sexuais. 

A mudança de nomenclaturas ajudou bastante a não ver a homossexualidade como doença. Contudo, não é regra geral. Ainda hoje, muitos acreditam que a pessoal homossexual precisa ser tratada, que trata-se de um distúrbio e a encaminham para uma cura gay. Isso acarreta uma série de doenças como depressão e propensão ao suicídio, devido à rejeição da sociedade e da família.

De acordo com Marco José de Oliveira Duarte, psicólogo, sanitarista, assistente social e autor do artigo Diversidade sexual, políticas públicas e direitos humanos: saúde e cidadania LGBT em cena quando há discriminação e preconceito com lésbicas, gays, transsexuais, transgêneros e travestis somente se contribuirá com um comprometimento da saúde dessa comunidade (com grifos):

"[...] quando tomamos essas mesmas discriminações e preconceitos por orientação sexual e identidade de gênero, traduzidos, respectivamente, de homofobia/lesbofobia e transfobia, entendemos esse fenômeno como elemento histórico na determinação social do processo saúde-doença-cuidado, que imprime mais sofrimento e adoecimento no conjunto de outras vulnerabilidades que geralmente acometem os LGBT."



Homossexualidade como doença






Até 1990, a homossexualidade era vista como doença e tinha a ver com fatores psicológicos, de saúde pública. Por esse motivo, gays eram internados em clínicas psiquiátricas e submetidos a tratamentos como choques nos órgãos genitais, lobotomia e hipnose. 

A Superintessante listou alguns métodos usados ao longo da história para reverter a homossexualidade. Confira:


Forca
Nas colônias protestantes dos EUA, no século 17, a sociedade era tão puritana que esse era o destino de quem cometesse “atos indecentes”


Prisão
Na Inglaterra, em 1895, Oscar Wilde foi condenado a ficar dois anos preso por seus relacionamentos “antinaturais”


Hipnose
Em 1899, um certo Dr. John D. Quackenbos tratava com hipnose não só a homossexualidade como a ninfomania e a masturbação


Castração
Em 1898, o Instituto Kansas de Doenças Mentais castrou 48 meninos. Certos pacientes buscavam voluntariamente a cirurgia de extração de testículos, acreditando que isso curaria seu desejo sexual


Choques
Em 1937, em Atlanta, médicos prometiam que seus pacientes desistiriam do “vício” depois de dez sessões de eletrochoques


Aversão
Nos anos 50, na Checoslováquia, pacientes tomavam uma droga indutora de vômito e eram obrigados a ver cenas de homens nus. Depois, recebiam um injeção de testosterona e eram expostos a imagens de mulheres nuas


Lobotomia
O tratamento foi usado no começo do século 20, até que, em 1959, um relatório do Hospital Estadual Pilgrim, em Nova York, avaliou 100 casos e concluiu que os pacientes continuavam homossexuais


Em 1886, o sexólogo Richard vou Krafft-Ebins agrupou a homossexualidade com outros 200 estudos de casos de práticas sexuais, em sua obra Psicopatias sexuais (em português), alegando que esta era causada por uma inversão congênita que ocorria durante o nascimento ou era adquirida pela pessoa. Richard disseminou a informação que homossexualidade estaria ligada à uma perversão sexual (psicopatia).

Já em 1952, a Associação Americana de Psiquiatria publicou no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtorno Mentais, que a homossexualidade era uma desordem e um distúrbio mental. Estudos posteriores comprovaram que não é, retirando-a da lista de transtornos mentais em 1973.

Por último, em 1977 a Organização Mundial de Saúde (OMS) incluiu a homossexualidade (Na época homossexualismo) na classificação internacional de doenças, como transtorno mental. O termo só foi retirado 13 anos depois no dia 17 de maio de 1990! Por esse motivo a data é conhecida como Dia Internacional contra a Homofobia

Cada país tratou e trata a homossexualidade de forma distinta. O Brasil deixou de tratar esta como doença antes da resolução da OMS de 1990, em 1985. A China tomou a atitude há 16 anos, em 2001. Ainda hoje há discussões na psicologia sobre cura gay. Creio que essa será uma luta difícil a ser combatida. 

Todo esse histórico nos leva a refletir como a comunidade LGBTQ+ sofreu e ainda sofre. Eram chamados de doentes, loucos, com distúrbios mentais. Será que ainda hoje são vistos assim? Mudar uma nomenclatura ou retirar da lista de doenças da OMS, não quer dizer que mudamos os cérebros das pessoas. 

A origem da homossexualidade está em um somatório de fatores, mas ninguém sabe a causa. Por que então tratá-la com bloqueios psicológicos? É assim que pensa Carmita Abdo, do Projeto de Sexualidade da USP:

“Mais importante que considerar a homossexualidade um problema psicológico, passível de ser tratado, é educar a população para respeitar as individualidades. Diferenças não são escolhas, e sim tendências que fazem parte da natureza da pessoas".


É um desafio constante compreender a orientação e identidade sexual dos indivíduos. Há rejeição, falta de compreensão e preconceito. Será que lá no fundo a sociedade ainda não trata a homossexualidade como doença?


Doenças mentais na comunidade LGBTQ+





Não ser aceito e compreendido pode gerar nas pessoas LGBTQ+ uma série de doenças psicossomáticas e mentais. Como um gay reagiria ao não ser aceito por seus pais? Como uma lésbica ficaria ao ser vista como uma doente? Como um transgênero se comportaria ao receber o conselho que deve continuar homem ou mulher, mesmo não se vendo assim? Muitos tentariam se moldar à visão e opinião do outro, mas isso não duraria muito tempo e acarretaria em transtornos graves.

Em 2000 estudos do American Medical Association's Archiver of General Psychiatry mostraram uma forte ligação entre homossexualidade e problemas emocionais e mentais, que ocasionam o suicídio. O número de jovens homossexuais que sofrem distúrbios emocionais e psíquicos é maior que os jovens que também sofrem:

"Os jovens que sofrem esses distúrbios foram quatro vezes o número dos da mesma idade que sofrem de maior depressão; quase três vezes o número dos que sofrem de ansiedade generalizada; quase quatro vezes o número dos que experimentam desordem de conduta; cinco vezes os que têm dependência de nicotina; seis vezes os que sofrem de desordens múltiplas; e mais de seis vezes os que têm tendências suicidas."


Nem sempre a depressão e suicídio de homossexuais está ligado à homofobia, mas não se pode afirmar que não há uma parcela inclusa. As doenças mentais e psicossomáticas, contudo, estão mais ligadas à aceitação de si mesmo e dos outros.

De acordo com Íris Ferreira, Juliana de Almeida e Natanael Reis no artigo Consequências biológicas, psicológicas, familiares e sócio-culturais do homossexualismo (Esse é o título mesmo em plena publicação em 2008!) o homossexual tem dificuldade em lidar com sua condição (com grifos e acréscimo):

"Outras [pessoas] lutam em silêncio, mas uma vez exaustos, assumem publicamente a homossexualidade. [..] As primeiras conseqüências do comportamento gay/lésbico são o agravamento dos sentimentos de culpa, solidão e depressão. Apesar do prazer momentâneo de relação sexual, o homossexual não consegue evitar as angústias causadas por seu comportamento."



Durante toda vida os homossexuais são influenciados pelos familiares e sociedade sobre como devem ser e agir. Muitas vezes, a pressão e a fórmula "correta" de se portar comprometem o bem estar psíquico e emocional destes. É assim que pensa Klecius Borges em seu texto intitulado A depressão nos homossexuais: o peso da homofobia (com grifos):

"Expostos a uma sociedade heterocentrada e homofóbica, desde cedo percebemos o estigma social vinculado a nossa orientação sexual e rapidamente desenvolvemos mecanismos internos de repressão e sublimação de nossos sentimentos. Ao mesmo tempo, como forma de evitar a rejeição de quem amamos e a discriminação social, aprendemos a disfarçar nossos impulsos, a controlar comportamentos e atitudes e a evitar quaisquer sinais que possam nos comprometer. Como resultado desse processo interno e externo, acabamos prejudicando seriamente nossa auto-estima e nos tornando defensivos, introspectivos e distantes emocionalmente.

É comum na adolescência, quando esses conflitos normalmente se acirram, o aprofundamento de sentimentos de solidão e desespero e o surgimento de fantasias (e até mesmo tentativas) de suicídio. É nessa fase também que muitos passam a consumir álcool e drogas como forma de aliviar o sofrimento."


Silenciar, reprimir, não se aceitar, ter pensamentos suicidas, depressivos, tentar mudar-se. Essas são as atitudes de muitos homossexuais. Isso pode ser resolvido com compreensão e aceitação.


Aceitação e compreensão: os antídotos



A depressão, tristeza, silêncio, tentativas de suicídio podem ser evitados se a família apoiar, aceitar e compreender o homossexual. A aceitação da orientação sexual é fundamental para o bem-estar psíquico e mental deste. Uma reportagem da CartaCapital mostrou um estudo da Unicamp onde comprovava que o preconceito aumenta o risco de depressão e que a aceitação produz o efeito inverso:

"Por sua vez, quando a homossexualidade do jovem é bem recebida pela família, e a proteção aumenta, diminuem os riscos de transtornos mentais." 



Esses são os antídotos para curar os homossexuais feridos emocionalmente. É preciso que a sociedade deixe de adoentá-los. O que percebo é que mesmo não tratando mais homossexualidade como doença, muitos tem deixado homossexuais doentes com suas discriminações, preconceitos e falta de amor. J-J





Por: Emerson Garcia

9 comentários :

  1. É uma pena que eu tenha conhecido seu blog apenas agora que estou desativando o meu, ainda assim, obrigado por passar no meu cantinho!
    Ja conheci um caso de um garoto que tinha uma namorada, um rapaz assediou ela e ela provocou ele "você não vai fazer nada?", então o garoto foi brigar com o outro e acabou apanhando. Resultado, o garoto começou a ficar com medo de se relacionar com garotas.
    Já vi gente religiosa usando esse caso para exemplificar que nem todo gay realmente é gay e que talvez os psicólogos devessem ter o direito de "tratar" isso sim, porque "é complicado". Mas acho que se esse garoto não tivesse nenhuma tendência bi para começo de conversa ele ficaria sozinho, e não iria procurar o outro sexo para solucionar o problema. Eu mesma nunca namorei nem nada, tenho sérios problemas de confiança com o sexo oposto, nem por isso me relaciono com mulheres porque não sinto atração sexual por elas.
    Como você disse, aceitação e compreensão é o que a comunidade lgbt (e as minorias no geral) precisam.
    Beijos :*
    http://www.thesecretshoot.com/

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    1. Que pena que você desativou o seu blog. Iríamos trocar várias figurinhas.

      Que histórias essas que você contou, heim? Acho que há um perigo em rotular as pessoas e dizer que elas precisam de cura. Ninguém sabe, de fato, o que se passa na cabeça das pessoas.

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  2. É verdade! A família hoje em dia aceita mais do que se fosse nos anos anteriores.. na minha época de faculdade de artes e moda convivi com muitos gays e eles sempre comentavam como eram complicado a aceitação na família e na sociedade.

    Um beijo,

    www.purestyle.com.br

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  3. Que excelente texto!
    Vou no caminho do comentário da Fernanda acima, tenho vários amigos gays e até hoje eles comentam comigo o tanto que sofrem com a sociedade/família e a maioria sofre mais com a família por não aceitar....é triste, acho triste porque todos merecemos amor independentemente da opção sexual.

    Beijinhosss
    Blog Resenhas da Pâm

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    1. É uma guerra né? Aceitar - se é buscar aceitação.

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  4. Sou pansexual e namoro uma garota e ainda sou cheia de problemas psicologicos... nunca sofri preconceito, mas morro de medo de como eu reagiria psicologicamente falando.
    Adorei sua postagem, muito explicativa e com argumentos bem colocados.
    Xoxo
    http://ja-ta-crescida.blogspot.com/

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    1. Que bom que gostou do post. Pesquisei bastante pra não deixar as discussões rasas.

      Legal você dizer que é panssexual e se aceitar assim.

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  5. Esse assunto ainda vai render anos e anos!

    http://clebereldridge.blogspot.com.br/

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Obrigado por mostrar seu dom. Volte sempre ;)

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