quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Niemeyer VI


De acordo com ela, entre outras vantagens, porque é uma obra de Oscar Niemeyer. “As pessoas tinham que se sentir lisonjeadas por ter uma obra dele aqui”, ela ratifica. Esse arquiteto ilustre e centenário diz que em suas obras pouco importa as retas e a monotonia. Para ele, a curva, o dinamismo e o traço sensual é que faz a diferença. “Não é o ângulo reto que me atrai[...]. O que me atrai é a curva livre, sensual[...]. Da curva é feito todo o universo, o universo curvo de Einstein”, diz o arquiteteto. Já na opinião de Damião a importância nada tem haver com Niemeyer, ou seja, com a estrutura, mas com a função. “A C.C. é importante porque muitas pessoas vêm do nordeste - e lá ele é acostumado com cantorias, coco de emboladas, aboio e cordel – e chegando aqui ele sabe onde encontrar suas origens”.  Desse ponto de vista a Casa é uma espécie de memorial, um museu, onde o nordestino-candango lembrará de sua região participando de cantorias, por exemplo. Pensar na inexistência desse local é tirar todas as possibilidades de lembranças do povo e não permitir que esse tenha saudade de sua terra. “Porque tendo a Casa ele vai vir matar a saudade aqui. Ele vem ouvir um pouco do aboio, da vaquejada, da cantoria de viola e dos contos”, conclui o sergipano.
  
“E onde o espectador que vive no nordeste poderia relembrar da sua história?”. Para responder essa pergunta vou descrever o local conhecido como Cantoria de Pé de Parede – aquele evento que Neumara estava preparando e no qual Damião Ramos participaria.
 Ao lado do saguão principal que contém a escada em espiral, passando por um corredor de quadrados envidraçados e chegando numa área vazia, encontramos um auditório alternativo e simples. Nesse espaço é realizado eventos de pequeno porte, como a Cantoria de Pé de Parede que consiste em uma mesa rígida e forte de madeira em que se colocam dois assentos e dois microfones improvisados unidos por um cabo de vassoura. O espetáculo consiste em várias duplas que se apresentam em um verdadeiro show de improvisação. Naquela noite de sexta-feira Damião Ramos estava se despedindo e seus colegas de profissão resolveram ajudá-lo cantando e angariando dinheiro para que Damião viajasse para São Paulo e trouxesse sua família mais para perto dele. Além de trazer um caminhão para Ceilândia.
Quem compareceu podia relembrar dos tempos de infância e das dificuldades que passaram no Nordeste. Eram esses temas que os cantadores improvisavam, contando até mesmo sua própria história e do porque daquele show. Nesse dia não só os nordestinos-candangos foram homenageados, como também Damião Ramos que tem, ao todo, 38 anos de profissão, sendo 15 de apresentações nas ruas, como violeiro e embolador, e 23 anos como cantante profissional. Entre os trabalhos que Damião já produziu estão os que ele fala da ecologia, do seu ser, da política.

-Já produziu alguma coisa sobre Ceilândia – perguntei.
- Com certeza, inclusive sábado farei uns versos para Ana Maria Braga – respondeu.
- Como será isso?
- Ela mandou me avisar que queria uma dupla de cantadores na Feira de Ceilândia para falar sobre a cidade.

 (Na maioria das vezes o público é quem elege o tema dos shows de cordéis).
  
A cantoria de Pé de Parede apesar de ter música e melodia não é para ser cantada ou dançada, e sim para escutar com atenção.  “É importante que o povo preste atenção. Se você chega numa cantoria de Pé de Parede para conversar ou dançar, ela passa e você não entendeu nada”, explica Damião. 

Continua...







Por: Emerson Garcia

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