terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Niemeyer IV



        O repentista e cantador me convida para fazer um tour pela Residência. Resolve me mostrar o hotel, que fica acima do saguão em que estava. Agora conheceria a experiência de subir aquela escada em espiral e mais do que isso, seguir o seu movimento.
O hotel, localizado no segundo andar e no formato de bloco retangular, possui janelas envidraçadas grandes e retangulares e sua fachada pintada de um azul claro, piscina, e revestido de um concreto de bordas arredondadas e curvas.
Ao subir às escadas, para acessar os dormitórios, estava ao lado de Damião que me explicava à medida que andávamos. Ao chegar na parte superior vejo dois sofás velhos e rasgados e uma mesinha com uma tv um tanto quanto antiga. Imagino que aquele lugar não era adequado para receber cantadores: a estrutura estava acabada. Algumas janelas quebradas, o gesso do teto estava cedendo em algumas partes e os quartos não eram bem equipados, contendo somente o estrado de madeira bastante velho e surrupiado, um guarda-roupa e nada mais. O hotel, que é conhecido como albergue de trânsito, dispõe de dez quartos nessas situações e um banheiro feminino e masculino, em bom estado até.
O alojamento é utilizado por vários cantadores que vem do Nordeste. Eles podem ficar ali durante 40 dias. Esse estabelecimento é importante porque quando os cantadores nordestinos vêm de outros estados, eles têm a garantia aonde irão se hospedar e não precisam ficar preocupados com estadia. Segundo Damião, em outros estados quando ele viajava não existia a Casa do Cantador e por isso tinha que ir prevenido levando sempre um dinheirinho para pagar a hospedagem. A C.C. de Ceilândia tem essa vantagem: com dinheiro ou sem o cantador é bem-vindo.
Depois de me mostrar toda a hospedagem, Damião Ramos me convida para descer a escada em espiral para que continuássemos conversando no térreo da Morada. Descemos, então, a escada.

 Conversei bastante com Damião, mas ainda não tinha esgotado o assunto com ele. Conversei pouco, ou quase nada com Neumara. Precisaria de outro dia para sentar em sua salinha abafada de cortinas persianas para ver o que teria para me revelar sobre a Casa.
  
Uma semana se passou. Estava familiarizado com aquele lugar público. Voltaria lá em mais uma tarde, agora para prosear com Neumara e tirar algumas dúvidas com o entusiasmado Damião.
Quando chego lá, me deparo com uma situação nada convencional: é que aquele auditório usado para festivais e cantorias estava sendo empregado como espaço para casamentos. Fui em direção a sala de Neumara.

-Olá, está se lembrando de mim? - digo.
-Claro que estou, como poderia esquecer? - me responde simpaticamente a mulher de óculos e cabelos curtos.
- Poderíamos conversar um pouco sobre a construção, a origem, a história da Casa?
-Claro, puxe uma cadeira e sente-se.

Neumara, entre outras características, é apaixonada pela C.C.; gosta dos cantadores, tratando-os de maneira digna; nasceu em um hospital da L2 sul, mas vive em Ceilândia Centro desde seu nascimento (isso na década de 70); é fissurada em cultura, teatro, eventos culturais; e se sente ofendida quando ocorre vandalismo, como a pichação do Teatro Nacional e quando, como naquele dia, acontecia a celebração de bodas em um local que é próprio para a cultura e os repentistas.
Mulher forte essa, de fibra. Conversando sobre as uniões que estavam ocorrendo naquele exato instante, ela me diz que esse acontecimento tira a identidade da C.C. porque atrapalha os eventos que teriam que ocorrer de fato, que são os culturais, para o artista e o cantador. A estrutura da C.C., assim como seu patrimônio e a sua forma, dificilmente suportaria qualquer evento que não fosse próprio para o Cantador. Todo o projeto foi concebido tendo em vista as necessidades dos repentistas. O auditório, assim como o hotel, não comporta eventos que por sinal já aconteceram na Morada, como festas, desfiles, casamentos.
  

      Observei bastante, nesses dois dias, que a estrutura da Casa precisava de uma mudança. 



Continua...


Por: Emerson Garcia

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