domingo, 20 de janeiro de 2013

Niemeyer II


       

       Ao dar os primeiros passos, chego mais perto do que já via do lado de fora da instalação: os três arcos suntuosos de Oscar Niemeyer eram bem convidativos.
A sensação que eu tive ao fazer mais uma marcha afim de alguém me atender, foi a de um lugar calmo, vazio, em que só ouvia barulho de pássaros e carros que por ali passavam. Foi quando avistei três homens sentados ao redor de uma mesa de madeira retangular. Minha hipótese caíra por terra: aquele local não era tão silencioso quanto parecia afinal o que avistara eram seres humanos. Ao vê-los, explico que estou ali por causa de um trabalho da faculdade e que gostaria de saber mais daquela história. Um rapaz me diz que quem poderia me atender não se encontrava e se quisesse esperar poderia me acomodar em uma cadeira de plástico. Aceitei a proposta.
  
Enquanto esperava quem me recebesse procurei ao máximo observar aquele lugar. Li mentalmente a personalidade daqueles três homens. Um tinha aparência de um senhor, cabelos grisalhos, não totalmente brancos. De maneira casual trajava uma bermuda e uma camiseta regata, usava óculos e estava lendo um livro de cordel. De semelhante modo, o segundo homem calçava chinela de dedo e estava lendo um livro. Já o terceiro estava com um boné preto, blusa preta, calça jeans e tênis e me pareceu jovem.
Escrevi esses relatos à sombra e com a vista para a construção de Niemeyer. Três arcos curvos, acimentados com concreto que se uniam uns com os outros. Isso identifica a C.C. como uma arquitetura inovadora e a única que está fora do eixo Brasília. Quem olhava para aqueles arcos tinha a sensação de movimento e dinamicidade. É como se essas curvas percorressem o espaço e se misturassem com o natural que rodeava a arquitetura. O concreto se confundia com o habitual ao passo que as plantas, as árvores, o canto dos pássaros, significava também curvas, retas, concreto, cimento.
  
Aquela roda de três homens aumentara para uma roda de cinco. Um deles trouxe um violão, o outro um doce de goiaba. A prosa daquelas pessoas de sexo masculino se iniciava de maneira descontraída e lúdica, e eu como mero espectador via aqueles homens felizes, nordestinos quem sabe, proseando e tocando o aparelho de cordas. Todos ali tocavam como em um cordel ou um show de repentistas. O som que era dedilhado daquele instrumento ecoou pelo espaço e chegou ao céu de Ceilândia, que por sinal é uma Ceilândia Nordestina.
Um deles resolve abrir o doce de goiaba. Tira a embalagem. A guloseima como qualquer outra impregnava as mãos de açúcar. Agora teria que arranjar uma faca, que por sinal não a tinha trazido. Resolve chamar o segurança do local para que ele providenciasse a faca a fim de provar tal iguaria. Ele a consegue e corta e distribui para os outros da mesa. Todos comem e acham bom. Um deles olha para mim e diz: “E você rapazinho, quer um pedaço?”. Eu respondo: “Quero sim”. Ele corta uma boa porção de doce e me dá. Eu agradeço apesar de impregnar minhas mãos - afinal ele não poderia exigir do segurança guardanapos porque já tinha lhe dado a faca, seria pedir demais. Nesse momento me senti pertencido ao grupo.
  


      A entrada principal da C.C. era uma espécie de saguão com azulejos escuros e grandes que comportava uma escada em espiral que dava acesso ao segundo andar do prédio.









Por: Emerson Garcia



Continua...

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