quinta-feira, 12 de outubro de 2017

A censura subjetiva da exposição 'Queermuseu'




O cancelamento da mostra Queermuseu- Cartografias da Diferença na Arte Brasileira tanto em Porto Alegre como recentemente no Rio de Janeiro pelo prefeito Marcello Crivela, torna a trazer em discussão - logo após toda polêmica do MAM - o possível choque que a arte pode gerar nas pessoas. Decidiram, por elas, que a mostra era imprópria. A censuraram, antes mesmo que os olhares dos apreciadores pudessem vê-la e contemplá-la. A balança do que é ou não arte, não ficou nas mãos dos indivíduos, mas do governo, censores e de uma infinidade de haters na internet e redes sociais que boicotaram a exposição. 

Esses decisores cravaram que a mostra era uma blasfêmia, incitava a pedofilia e zoofilia, sem ao menos analisarem seu propósito e significado. Aliás, eles embasaram suas denúncias em apenas três das 264 obras, descontextualizando cada uma delas com alegações genéricas de apologia à pedofilia e zoofilia. Foi como se utilizassem esses conceitos fortes e pesados em algo que não cabe. 

De acordo com os idealizadores, o projeto tem o intuito de gerar reflexões sobre gênero, diversidade e violência. Desse modo, embora algumas obras tragam crianças, isso não é pedofilia (Imagens 1 e 2); embora sejam retratados Jesus, Virgem Maria e um Orixá (3, 4 e 5) isso não é vilipêndio contra as religiões cristã, hindu, candomblecista e umbandista; e embora se exponha uma imagem de zoofilia (8) isso não é fazer apologia à ela. É preciso entender as obras em um contexto maior, que não passa pela incitação de sexualizar crianças, aceitação de sexo entre humanos e animais, muito menos menosprezo de religiões.

Uma das obras mais polêmicas, que fez com que a exposição fosse retirada de cartaz, foram as ilustrações das Crianças Viadas de Bia Leite (1 e 2). Com certeza você já deva ter ouvido falar dessa expressão e garanto que foi em um contexto bem pejorativo. As obras, na verdade, retratam pessoas LGBTQ+ em suas mais tenras idades e todo o preconceito que sofreram. Elas não foram com o intuito de sexualizar crianças, mas sim de mostrar como era a realidade das pessoas que se consideram LGBTQ+ atualmente. 




Outras que geraram polêmica foram a da Virgem Maria (3) e as de Jesus Cristo (4 e 7). Embora elas tragam figuras religiosas conhecidas, não significa insulto à religião. Pelo contrário, elas retratam as apropriações culturais, a miscelânea capitalista e o consumismo do Ocidente. A figura de Maria, por exemplo, traz um chimpanzé no colo, e até mesmo a Galinha Pintadinha. A de Jesus Cristo (4) vários símbolos do capitalismo - computador, coca-cola, quadro da Marilyn Monroe, entre outros. Esta última, por exemplo, mistura a figura de Jesus Cristo (cristianismo) com a do hinduísmo (deus Shiva) e conceitos ocidentais e orientais. De acordo com o autor Matisse a obra não é Jesus. "É uma pintura. É a minha cabeça, ponto. Me sinto bem à vontade para pintar o que quiser"

Aliás, outra imagem que gerou burburinhos foi a de Jesus Cristo com o pênis ereto (7), que de acordo com seu idealizador não tem a ver com perversão, mas com uma alusão à humanidade de Cristo. O sentido de trazê-lo crucificado significa mostrar o universo da sexualidade que mistura prazer e tortura. A obra não tem o intuito de discutir religião, mas questões sexuais e humanas através da figura de alguém crucificado, que poderia ser qualquer pessoa.

É interessante perceber que as obras, principalmente a de Jesus Cristo e da Virgem Maria, foram desaprovadas por cristãos. Contudo, uma das figuras de Cristo (4) traz conceitos de religiões orientais - mais precisamente do hinduísmo - e não tenho conhecimento de hindus que a questionaram. Por que será? Se vilipendiou a religião cristã, também vilipendiou a hindu, não concordam?! Aliás, não vi adeptos de religiões africanas, como candomblecistas e umbandistas, criticando a obra de um Orixá onde de sua cabeça sai um arco-íris que irradia pelo universo (5). 

Se o Brasil é um Estado Laico, porque interferir somente na representação do cristianismo? Se o Brasil é um Estado Laico, porque tomamos as dores apenas dos católicos e evangélicos? Retirar as obras de cartaz, através de um argumento que elas são uma blasfêmia à religião cristã, não seria ser parcial? Aliás, partir desse pensamento nos faz retornar à ideia do primeiro parágrafo desse texto: a de definir o que é arte ou não através de conceitos subjetivos e parciais que passam pelo que acho ser artístico e pelo que me afeta somente, e não a todos. No final, a minha opinião subjetiva passa a ser a de todas ou a da maioria das pessoas porque eu quis assim. Como, por exemplo, acreditar que a obra de uma menina com um vestido prateado e com um lenço colorido no chão (6) afeta não só as minhas crenças e visões de mundo, como de uma sociedade inteira. Isso a partir da doce ilusão que a arte é objetiva, concreta e tem somente um significado!

Aliás, o prefeito do Rio de Janeiro foi egoísta ao cancelar a exposição só por conta de suas convicções, visão de mundo e religião. PARA ELE, Jesus Cristo jamais poderia estar retratado como estava. PARA ELE, uma criança vestida daquela forma está sexualizada e, com certeza, é UMA CRIANÇA VIADA. PARA ELE, só importa defender os ideais cristãs, mas não os hindus, candomblecistas e umbandistas. PARA ELE, a exposição não é arte, mas um insulto, blasfêmia, apologia a pedofilia e zoofilia. PARA ELE....

A arte é subjetiva porque é representativa e reflexiva. Para mim, crianças representadas daquela forma (1 e 2) significa algo; para você, outra representação e análise; e, ainda, para o criador da obra, uma ideia específica, um conceito. Censurar subjetivamente uma exposição como essa, é retirar das pessoas a reflexão, opinião e pontos de vista. A arte foi criada pra ser refletida e analisada. A Queermuseu, especialmente, para discutir temas atuais sobre diversidade, identidade sexual, entre outros polêmicos. E discuti-los não é fazer apologia às Crianças Viadas, Zoofilia ou religião. É simplesmente incitar o debate.

Não é a primeira vez que uma exposição perde o seu propósito inicial e sua real significação. Quantas obras modernistas e de nus já sofreram represálias e reprovações, perdendo seu real conceito? Aliás, posso imaginar o escândalo que o Davi de Michelângelo gerou quando foi exposto pela primeira vez ou quando Picasso pintou aquela obra cubista com várias mulheres nuas. Mas, com o decorrer do tempo essas obras foram reconhecidas como arte e estão em museus TRADICIONAIS da Europa e dos Estados Unidos. 

Agora, são as do Queermuseu que tem gerado escândalo. Mas as que mais geraram polêmicas não trazem nus artísticos, perceberam isso? Hoje, o que escandaliza é a opção sexual do outro; são as representações artísticas das Crianças Viadas; e as visões de mundo Queer ou LGBTQ+. Em minha opinião, o que está sendo boicotado não é o teor sexual ou erótico das obras, mas a filosofia e visão de mundo LGBTQ+. No final das contas, os censores da exposição não querem discutir essas temáticas e querem que as outras pessoas não discutam também.

Ainda sonho com o momento que a arte não seja boicotada ou vista de forma objetiva, através de subjetividades. Em que as pessoas vejam a importância da arte para aumentar a intectualidade, produzir mudanças, reflexões e discussões. A arte é cultura, mas também é ensinamento e desvendamento dos olhos. Finalizo esse texto com uma frase de Umberto Eco: "Nós não sabemos exatamente como, mas sempre foi a arte que primeiro modificou nossa maneira de pensar, ver, sentir, mesmo antes e às vezes com um século de antecedência, que pudéssemos entender por quê." J-J


Por: Emerson Garcia

6 comentários :

  1. Eu queria muito entender da onde veio essa histeria coletiva com a arte nos últimos dias. As pessoas estão surtando e não fazem ideia do que estão falando! É complicado, bem complicaod.


    Beijinhos
    n. // www.fashionjacket.com.br

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  2. Realmente é complicada essa questão, é preciso entender exatamente o que está sendo de fato discutido. Se é a arte ou essa questão da sexualidade. ótimo texto!
    Beijos,
    #fiquerosa

    Fique Rosa | Meu Canal YT

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    Respostas
    1. Que bom que gostou do texto. Na verdadeira interpretação está a resposta.

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  3. Concordo com tudo que você escreveu! Acho um absurdo em uma país laico lá no Senado só ter símbolos cristãos na parede. Acho um absurdo a revista placar (acho) ter um Neymar na cruz e essa obra ter sido censurada. Voltamos à ditadura e não estamos sabendo?

    www.vestindoideias.com

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