quarta-feira, 3 de abril de 2013

A conta da corrupção

Com a reforma do Maracanã para a Copa de 2014, o Estádio Olímpico João Havelange tornou-se o principal palco do futebol carioca nos últimos anos. Na semana passada, entretanto, o estádio foi interditado por apresentar problemas estruturais em sua cobertura. A gravidade da situação chega a indicar possibilidade de desabamento da estrutura em caso de ocorrência de rajadas de vento superiores a 63 km/h.

Após o fechamento do local, diversos outros problemas foram constatados: sistema elétrico deficiente, parte hidráulica enferrujada, equipamentos eletrônicos de baixa qualidade e argamassa ruim estão entre os principais deles. O resultado é visível em muita ferrugem, rachaduras, quedas de energia frequentes e problemas constantes com fornecimento de água.

Com capacidade para até 46 mil pessoas, o Engenhão foi erguido durante dois últimos mandatos de César Maia (PFL, hoje DEM) na prefeitura do Rio. Sua principal finalidade era receber as competições de atletismo e futebol nos Jogos Pan-Americanos de 2007 e fazer parte do legado esportivo que a competição deixaria para a cidade.


Ironizado como “Vazião”, estádio recebeu apenas 8.184 torcedores – 5.732 pagantes – para Flamengo x Portuguesa, pelo Brasileirão de 2012 (Foto: Allan Virissimo).



Inicialmente, a responsável pela obra foi a construtora Delta (envolvida nos escândalos do bicheiro Carlinhos Cachoeira), posteriormente substituída emergencialmente por um consórcio entre a OAS e a Odebrecht. O custo ao erário foi de R$ 376 milhões, mais de seis vezes o valor previsto inicialmente (R$ 60 milhões).

As obras deveriam durar pouco menos de dois anos, com conclusão no fim de 2004. O plano foi por água abaixo com os sucessivos atrasos nos trabalhos, que levaram ao aumento de prazos e custos. Já sob suspeitas de corrupção, a obra sofreu outro baque com o abandono da Delta, que alegou não ter condições financeiras de concluir o empreendimento. A OAS e a Odebrecht assumiram às pressas, com calendário apertado, e o estádio acabou inaugurado às vésperas do Pan, em 31 de junho de 2007.

REJEIÇÃO E DÚVIDAS- O Engenhão é conhecido por não ter caído no gosto dos cariocas. De acesso considerado difícil e com estrutura limitada em seus arredores, a arena costuma registrar públicos bastante modestos mesmo em jogos de maior apelo. O excesso de jogos na falta do Maracanã e sua frequente utilização para outros eventos, como shows e apresentações, muitas vezes danifica seriamente o gramado, o que gera reclamações das equipes que jogam ali.


Deterioração da estrutura metálica é apenas um dos problemas do Engenhão (Foto: Daniel Ramalho/Terra).


Menos de seis anos se passaram desde sua abertura, mas há seis dias o estádio foi interditado sem que o poder público saiba exatamente o que deve fazer, o valor dos ajustes e quando poderá reabri-lo. Além de ter exposto o público ao perigo por tempo desconhecido, a situação afeta clubes, torcedores, o campeonato estadual, o comércio da região e todas as atividades econômicas ligadas ao pleno funcionamento do Engenhão. E o prejuízo nem contabiliza a imagem arranhada do Brasil pela repercussão negativa no exterior.

Apesar de tudo isso, o maior prejudicado é sempre o mesmo: o cidadão. Quem pagará pelas reformas necessárias? Como tanto dinheiro investido resultou numa obra de tão baixa qualidade? E mais: vai acontecer o mesmo com os estádios da Copa? Com as instalações levantadas para os diversos esportes das Olimpíadas? (leia o post de Emerson Garcia do dia 23/07/12). Quanto tempo eles vão durar até a interdição e a necessidade de mais recursos públicos para reformar o que foi construído com cobiça e desleixo?

São muitas as questões que ficam para o contribuinte. Novamente a população assiste uma obra cara, mal realizada e que coloca em risco a segurança e a integridade das pessoas ter sua única e questionável utilidade comprometida pela incompetência na gestão pública. Não há troféu nem medalha que ofusque tantos gols contra. J-J

Por: Allan Virissimo

Um comentário :

Obrigado por mostrar seu dom. Volte sempre ;)

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