quinta-feira, 16 de julho de 2020

Entre Frames #30: Falso Azul - Cícero







Hoje é quinta-feira e esse é o Entre Frames. Aliás, será o último antes das merecidas férias do JOVEM JORNALISTA. Para encerrar esse primeiro período de 2020 resolvi analisar o clipe Falso Azul, do cantor Cícero. Lançado no dia 16 de março desse ano, o clipe conta com quase 200 mil visualizações, 13 mil curtidas e 58 descurtidas. O vídeo é estrelado exclusivamente por Cícero. A realização e montagem é de Guilherme Braz, com direção de fotografia de David Marques, produção de Grumpy Panda From Outer Space e o lighfilm online Pedro Vicente (Musgo Studio). Além deles, o clipe contou com o colorista Paulo Inês. 

Falso Azul tem passagens na rua e em um hotel. Tudo acontece na Europa. Cícero marca presença com seu ar poético e sua solidão, esta última sentida na pele pelos telespectadores. A fotografia e paleta de cores são em tons amenos e pasteis. Há muitos movimentos de câmera, edições, montagens e conceitos visuais. Assista:




Como de costume, vamos aos meus apontamentos sobre o clipe.


Fotografia, estética e outras coisas mais

O clipe possui uma fotografia e estética acolhedoras, apesar de ser um clipe e letra tristes e melancólicos. A fotografia é intimista, trazendo o ar frio e nublado da Europa, por meio de uma paleta de cores de tons pasteis. O clipe é ora azulado, ora amarelado, ora amarronzado. Pelo uso das cores é impossível imaginar um clima quente e ensolarado. 

O azul e amarelo são cores contrastantes entre si e no clipe elas aparecem unidas e combinadas. O azul frio e nublado do céu, casa muito bem com o casaco amarelo de Cícero. O azul, aparece como solidão, frieza e angústia. Já o amarelo, não como uma cor alegre e descontraída, mas sim tristonha. Enfim, o clipe é bonito de se ver, no bom sentido da palavra. 


A solidão de Cícero




Como falei na introdução, ela dá para ser sentida por quem assiste ao clipe. Cícero, queria estar acompanhado e dançando com uma amada, mas ele escolhe ir para um hotel em um dia nublado e frio, jogar xadrez e dançar sozinho em um salão. 

O início do clipe me trouxe esse desconforto e tristeza, pois ele inicia de forma silenciosa e com a câmera estática (0:04 - 0:15). Já dá para perceber a amargura do cantor pelo seu olhar e a forma que ele sai do carro, sem causar alarde ou barulho. 

A câmera não invade a tristeza de Cícero. Ela apenas acompanha o que acontece na cena, sem ser invasiva, como no momento que Cícero começa cantando e olhando para ela (0:16 - 0:17). A câmera não faz um simples movimento, ficando estática. Outra coisa importante a ser analisada nesse frame é o seu posicionamento assimétrico.  




Cícero entra no hotel



Da paleta azulada do início, o clipe conta com filtros e paredes amarelos, mas claro, sem deixar de lado a atmosfera já construída. O frame de Cícero no corredor do hotel (0:26 - 0:31) é um dos mais belos de todo o vídeo. A simetria e o centralismo do cantor foram muito bem empregados. A quantidade de elementos à esquerda, é a mesma à direita e a profundidade deu um efeito da hora na tela. 



Cícero entra no elevador




Continuando com o desbunde artístico do clipe, passamos para o momento que o Ciço entra no elevador (0:31 - 0:35). A paleta de cores é, em sua maioria, em tons de amarelo, seja qual for! Algo que chamou a minha atenção são os elementos retangulares e quadrados no frame. São figuras circunscritas dentro das outras, o que deu um resultado incrível.  

O próximo frame é artístico (0:36) e não deveria estar ali, teoricamente. Cícero estava dentro do elevador, certo?! Mas nesse frame aparece ele entrando no elevador, e depois foca para ele no elevador novamente. Esse recurso mudou com toda a narrativa do clipe. O editor "brincou bonito" na edição. 




Cícero na mesa de restaurante



Os frames seguintes (0:37 - 0:44) vão mostrar Cícero sozinho em uma mesa de restaurante, mas de uma forma criativa. A câmera começa filmando do canto direito para o esquerdo, lentamente. Ela mostra todo o ambiente e o cantor em uma mesa lá no fundo.  

O cantor está melancólico e com cara de poucos amigos (0:44 - 0:47). Ele joga xadrez e observa a neblina pela janela. Talvez pense que o frio do clima é melhor que o frio da sua alma. Talvez tenha imaginado estar no hotel com alguém amado. Talvez acreditasse que jogaria xadrez com alguém. Talvez. O frame seguinte (0:48) foca no rosto de Cícero. Ele está pensativo e reflexivo. É interessante perceber o equilíbrio entre sua face e a paisagem de neblina pela janela. O quadro foi muito bem dividido. 




O frame seguinte são duas cenas divididas, mostrando várias perspectivas. Aliás, a divisão de telas foi muito utilizada em Falso Azul




Você jogaria xadrez consigo mesmo?! É exatamente isso que o cantor faz, mas ele não aguenta muito tempo. Ele precisa de companhia, de contato físico. Então, ele se aborrece por conta do tédio da vida e derruba as peças com uma força descomunal, que é possível até mesmo ouvir os barulhos delas (0:48 - 0:53). 





Centralismo, formas geométricas e câmera de dentro pra fora




Os frames seguintes (0:54 - 0:55) são lindos, artisticamente falando. É possível perceber o centralismo e uso de formas geométricas, bem como a câmera que filma de dentro para fora. Primeiro quero falar do centralismo. É tudo tão perfeitamente medido no frame, que dá gosto de ver. A quantidade de cadeiras à esquerda do cantor é a mesma à sua direita. E os vidros da janela foram calculados milimetricamente para ficarem no meio.

Segundo, falo das formas geométricas. Os quadrados dos vidros tornaram o frame mais belo. Aliás, o cinegrafista não nos poupou de colocar figuras geométricas na tela, como já vimos nesse texto e ainda veremos mais à frente. 

Por último, analiso a câmera nesses frames. Primeiro a câmera mostra um plano geral do ambiente e de Ciço, depois ela foca no rosto do cantor e, lindamente, vai se distanciando dele (0:55), como se a gente se despedisse da estrela do clipe. 





Cícero brinca com uma lanterna




No quarto do hotel, Cícero pega uma lanterna e parece procurar algo com ela (1:00 - 1:02). O que ele devia estar procurando? O interessante é que a luz da lanterna é azul e tem um frame que a tela toda fica iluminada com a cor (Veja o próximo tópico). 


Tela se enche de cores



Durante todo o clipe há - pelo menos - seis inundações de cores na tela. O interessante é que as tonalidades variam entre cores frias e neutras (azul e branco), até em tonalidades quentes (amarelo claro, laranja e vermelho). Claro que para perceber todas elas é preciso de um olhar atento, pois ocorrem rapidamente. A primeira inundação de cor é com uma luz branca (0:56); a segunda e a terceira com uma azul (1:05); a quarta com uma laranja (1:26); a quinta com uma vermelha (2:14); e a sexta com um jogo de luz amarelo pastel.


Vários frames e montagens



Algo que chama a minha atenção no clipe de Falso Azul é sua edição primorosa e cuidadosa. O editor junta vários pedacinhos de cenas de modo a construir frames rápidos e flashes do cantor. A primeira vez que ele faz isso são nos frames acima (1:03 - 1:04), em que o cantor se senta em uma poltrona, depois em outra e depois se levanta e olha para uma janela. Ao meu ver, os frames mostram a inconstância do cantor. Ele não fica parado hora nenhuma, por conta do seu tédio e solidão. Achei isso incrível! 

A segunda é quando Cícero está em frente a uma parede azulada e vemos vários frames rápidos e flashes do cantor (1:27 - 1:31). Em cada frame ele está em uma posição diferente e ele chega a brincar com a câmera que o visualiza, colocando até mesmo o capuz do casaco. 





A última vez é quando a câmera foca em várias partes do corpo do cantor, como braços, ombro, mãos cruzadas e cabelo encaracolado (2:35 - 2:44)





Entre um café e outro




Para amenizar a solidão, Cícero pede um café (1:07 - 1:15). Apesar de não ser uma presença humana, o café oferece aconchego e um lugar quentinho no peito. Em determinado momento do clipe Ciço começa a dançar no ritmo da música e a bater na mesa. O café que está na mesa começa a balançar com o batucar das mãos do cantor.

A câmera faz um trabalho incrível de filmar Cícero de cima para baixo, focando em suas mãos e no café, até que ela mostra Cícero em um plano geral batendo na mesa (1:16 - 1:20). A câmera fica estática, assim como no início do clipe, e enquadra Cícero quase no meio da cena, mas mais alinhado para a direita.  

Nos frames seguintes (1:21 - 1:25) a tela se divide em duas cenas. A primeira de Cícero se levantando da mesa e caminhando pelo restaurante; e a segunda dele dançando. Mais uma vez, o clipe é belo, pois é utilizado o recurso de contra luz em que podemos ver a sombra do cantor e das grades da janela. Lindo, né non?!




Depois dessa explosão de beleza aos nossos olhos, o clipe volta a ficar na coloração original e traz Cícero simétrico e centralizado na cena (1:32). 




Cícero mergulha em uma piscina



Se tratando de videoclipe, é plenamente aceitável ver alguém cantando de roupa na piscina (1:41 - 1:42). Cícero faz desse momento, algo poético e único. As cores desse trecho vão do amarelo do teto e dos vidros, até o amarelo do casaco de Cícero, marrom da sua calça e azul da piscina. Aliás, tudo dentro da paleta de cores e da estética do clipe desde o início.   


Cícero dança solitário



A produção do clipe oferece uma leveza ao telespectador, embora com toda atmosfera pesada que se instaura desde o seu início. Conforme a música e o clipe progridem, o telespectador tem a capacidade de se soltar ao ver o Ciço dançando e segurando o riso de forma tímida (1:35 - 1:38). A dança de Cícero é simples, mas envolvente. Ele mexe os pés, se ajoelha e passa a mão no salão do hotel, etc... 


Câmera torta



Os últimos clipes que analisei tiveram esse recurso artístico e visual e gostei muito. Em Falso Azul ele é repetido (1:43). Percebe que o cinegrafista experimenta várias coisas no clipe? E que o editor também mandou super bem?


E anoitece!



O falso azul do clima e da melancolia de Ciço, abre espaço para um azul muito mais intenso e penetrante quando anoitece (2:15). Foi incrível sentir a tonalidade desse céu "azulão" e ver o cantor em contra luz. Ficou poético, até. 


Metade do cantor




O clipe explora muitos bons planos, dimensões e ângulos. Mas se fosse pra destacar um momento em que isso acontece, seria quando a câmera filma metade do cantor de baixo para cima do seu rosto (2:24 - 2:26). Ficou da hora esse frame!


Cícero no quarto do hotel



Depois de passar tanto tempo "curtindo" sua solidão e dançando, Cícero vai até o seu quarto de hotel e filosofa e reflete sobre sua vida (2:27). A cor que predomina na cena é a amarelo. O cantor aparece alinhado à direita do vídeo. 

Em 2:29 Cícero se deita na cama exausto. A câmera, mais uma vez, foca em seu rosto melancólico e triste. Vemos vários frames de partes do corpo do cantor (Assunto já falado)  e o clipe finaliza com Cícero deitado, alinhado mais à esquerda da cama e com um jogo de luz em tom pastel (Também já falado) (2:43). 



Frames finais

De 2:46 à 2:49 é possível ver a ficha técnica do clipe, patrocínios e agradecimentos. A ficha é em tom amarelo, sob um fundo negro. A disposição da ficha me lembrou filmes antigos e até mesmo a ficha técnica de desenhos antigos. 





O clipe, apesar de não contar uma história, conta muitas histórias

Não foi preciso narrar uma história, construir uma argumentação, preparar um roteiro ou ter vários atores envolvidos para que o clipe tivesse uma história. Aliás, o clipe conta muitas histórias, como: a solidão de Cícero em um dia frio, nublado e com neve em algum lugar da Europa e sua ida à um hotel qualquer da região. A história do clipe, imprime em quem o assiste, melancolia, dor, tristeza. Como falei no início do texto, é possível sentir a dor do cantor, que faz de tudo para afastá-la mas não consegue. 

O falso azul pode ter vários significados, são eles: ausência de nuvens no céu europeu; clima e temperatura europeias; ou até mesmo a própria tristeza do cantor de estar sozinho. 

Enfim, Cícero conseguiu criar algo bacana e compreensível aos seus fãs. É um clipe simples, porém objetivo, onde foram criadas inúmeras conexões com o telespectador. 


Letra


A letra fala da ausência de céu e de um falso azul que pode ser percebido na atmosfera. Cícero anseia por ter uma companhia que dançe com ele, mas tudo não passou de um triste sonho. Destaquei alguns trechos:

"Céu não há
hoje foi embora
tem, mas não tá
ou não quer aparecer"

Ele fala de uma inconstância, que pode ser tanto da natureza como do ser humano.


'Outro céu

outro céu num quarto de hotel"

O trecho menciona o lugar em que se passa o clipe - o hotel.


"Batia o sonho
e nesse sonho eu dançava com você
raiava o dia
e nesse dia eu dançava com você
mas era sonho"

Aqui o letrista - no caso o Cícero - chega a delirar e imaginar que dançava com alguém. 


"Venha, luz bonita
alumiá-la
raio da manhã no luar"

A luz podia ser uma ponta de esperança que o autor tivesse. 


Música

O clipe é pop, assim como a música. A melodia tem um ritmo calmo, mas incisivo e é cheio de ranhuras instrumentais. Ela lembra bastante a pegada sonora de Sábado, o segundo cd do cantor.   


E assim encerramos o Entre Frames desse meio de temporada. Até o retorno! J-J













Por: Emerson Garcia

6 comentários :


  1. Boas férias companheiro. Cuida-te
    .
    Abraço

    ResponderExcluir
  2. Não conhecia, mas gostei da sua análise.

    Beijo.
    Cores do Vício

    ResponderExcluir
  3. Excelente sua análise. Aproveite as férias. Se cuide. Abraço!

    https://lucianootacianopensamentosolto.blogspot.com/

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  4. Boas férias meu amigo querido. Espero que volte com ótimas idéias.

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  5. Obrigado por dar a conhecer!
    Bom fim_de_semana 🌈

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Obrigado por mostrar seu dom. Volte sempre ;)

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