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domingo, 30 de junho de 2019

50 anos da Revolta de Stonewall



Finalizando com as postagens em homenagem ao mês do Orgulho LGBTQ+, falaremos da Revolta de Stonewall que na última sexta-feira (28) comemorou-se 50 anos. Esse evento deu início a grandes movimentos ativistas de direitos LGBTQ+, assim como a tão conhecida Parada LGBTQ+.


Bares LGBT



Os anos 60 e décadas anteriores não eram tempos de boas-vindas para os americanos lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros (LGBT). Com isso, os LGBTQ+ faziam uso de bares onde podiam socializar e se divertir sem causarem problemas ou algum tipo de violência. Porém, houve uma lei que proibia a venda de bebidas alcoólicas para pessoas LGBTQ ou “suspeitas” de serem LGBTQ, sob o argumento de que os homossexuais faziam muita baderna. Muitos bares e clubes foram fechados devido a essa lei.

Graças aos esforços dos ativistas esses regulamentos foram revertidos em 1966, e os clientes LGBT agora podiam receber bebidas alcoólicas. Mas se envolver em comportamento gay em público (dar as mãos, beijar ou dançar com alguém do mesmo sexo) ainda era ilegal. O assédio policial aos bares continuou e muitos ainda operavam sem licenças de bebidas alcoólicas - em parte porque eram da Máfia da época.


Stonewall Inn 




A Máfia viu lucro com o público gay, principalmente porque ele estava sendo evitado em outros bares. A partir daí, a família criminosa Genovese controlava a maioria dos bares gays de Greenwich Village. Em 1966, eles compraram o Stonewall Inn (um local que antes tinha um público hétero), reformaram-no a preço baixo e o reabriram no ano seguinte como um bar gay.

O Stonewall Inn foi registrado como um tipo de bar particular, que não exigia uma licença de licor, porque os clientes deviam trazer sua própria bebida. Os participantes do clube tinham que assinar seus nomes em um livro na entrada para manter a falsa exclusividade do clube. A família Genovese subornou a Sexta Delegacia de Polícia de Nova York para ignorar as atividades que ocorriam lá.

O estabelecimento rapidamente se tornou uma importante instituição em Greenwich Village. Era grande e relativamente barato para entrar. Acolheu drag queens, que recebeu uma amarga recepção em outros bares e clubes gays. Era um lar noturno para muitos fugitivos e jovens gays sem teto, que mendigavam ou furtavam em lojas para pagar a taxa de inscrição. E foi um dos poucos - se não o único - bar gay que permitiu dançar.

As invasões ainda eram um fato da vida, mas geralmente policiais corruptos avisaram os bares controlados pela Máfia antes que as batidas acontecessem, permitindo que os proprietários guardassem o álcool (vendido sem uma licença de licor) e escondessem outras atividades ilegais. Na verdade, o Departamento de Polícia de Nova York havia invadido o Stonewall Inn poucos dias antes do ataque que iniciou as revoltas.


A revolta


Quando a polícia invadiu o Stonewall Inn na manhã de 28 de junho, foi uma surpresa - o bar não foi avisado desta vez. Armados com um mandado, policiais entraram no clube, agrediram clientes e, ao encontrar álcool pirateado, prenderam 13 pessoas, incluindo funcionários e pessoas que violavam o estatuto estatal de vestuário adequado ao sexo feminino (policiais do sexo feminino levavam suspeitos de vestir-se com roupas do sexo oposto para verificar seu gênero).

Fartos do constante assédio policial e da discriminação social, clientes e moradores da vizinhança ficavam do lado de fora do bar, em vez de se dispersarem, tornando-se cada vez mais agitados conforme os eventos se desenrolavam e as pessoas eram agressivamente maltratadas. Até que um policial bateu na cabeça de uma lésbica enquanto a forçava a entrar na viatura. Ela gritou para os espectadores que agissem, incitando a multidão a começar a jogar moedas de um centavo, garrafas, pedregulhos e outros objetos na polícia.



Em poucos minutos, um tumulto total envolvendo centenas de pessoas começou. A polícia, alguns prisioneiros e um escritor da Village Voice ficaram presos no bar e a Máfia tentou incendiá-los. O corpo de bombeiros e um pelotão de choque acabaram conseguindo apagar as chamas, resgatar os que estavam dentro de Stonewall e dispersar a multidão. Mas os protestos, às vezes envolvendo milhares de pessoas, continuaram na área por mais cinco dias, aumentando em um ponto depois que o Village Voice publicou seu relato dos tumultos.

Após esses eventos, as revoltas deram mais forças a movimentos ativistas, ajudando no desenvolvimento de numerosas organizações de direitos gays, incluindo a Frente de Libertação Gay (FLG), Campanha de Direitos Humanos, GLAAD (anteriormente Aliança Gay e Lésbica Contra a Difamação) e PFLAG (anteriormente Pais, Famílias e Amigos de Lésbicas e Gays).


FLG e Ativistas





A Frente de Libertação Gay (FLG - Gay Liberation Front) surgiu em meados dos anos 1960 após a Rebelião de Stonewall como um grupo revolucionário de gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais, que busca a libertação sexual, visando papéis sexuais e definições de sua natureza, além de ser uma contra-resposta a estrutura do papel sexual e do núcleo familiar. 

A FLG impulsionou mobilizações de massas que obrigaram o Estado e o Poder Legislativo a assegurar os direitos civis e garantir proteção jurídica a fim de por fim nas discriminações por parte de instituições públicas e privadas. 

De modo polêmico e desafiador, a FLG foi uma das primeiras instituições homossexuais a usar o termo "gay" em um de seus panfletos, que dizia o seguinte: "Você Acha que os Homossexuais Estão se Revoltando? Aposte sua Doce Bunda que Estamos!".

A militância gay surgiu exatamente com a FLG e seu trabalho tornou-se evidente para Frank Kameny e Barbara Gittings. Assim, a FLG bebeu da fonte de manifestações raciais e de antiguerra, objetivando a reestruturação estadunidense. 


Década de 1970

No verão de 1970 vários grupos foram criados para comemorar a Rebelião de Stonewall, por meio de paradas. Vários deles utilizavam a denominação FLV, já outros eram conhecidos pela Aliança de Ativistas Gays (AAG - Gay Activists' Alliance). 

Com isso, houve um boom de surgimentos de grupos da comunidade LGBTQ+, como: Campanha Contra a Moral Perseguição (CAMP, inc) e Lavender Menence - com esse último movimento mobilizações lésbicas começavam a ganhar destaque.   


Ativistas


A história conta com vários ativistas LGBTQ+. Destaco alguns deles:


Mark Segal

Mark Segal, um dos membros do FLG, promoveu os direitos dos homossexuais em vários locais, sendo um dos pioneiros do movimento gay. Deve-se à ele a criação de uma imprensa própria para a comunidade LGBTQ+, com os jornais The National Gay Press Association e National Gay Newspaper Guild e do prêmio Philadelphia Gay News - que comemorou seus 30 anos de existência.









O jornalista entendeu o poder da mídia, realizando várias coberturas de reportagem na temática. Em 1973, por exemplo, Segal conseguiu colocar o evento Walter Cronkite em mais de 60% dos lares americanos. Pela primeira vez muitos telespectadores viam e ouviam falar sobre a homossexualidade.

Seagal recentemente coordenou uma rede de publicações gays locais com o intuito de comemoração do mês da história gay que atingiu mais de meio milhão de pessoas. 


Jornais gays


Vários ativistas encontraram na mídia impressa a saída para expor suas ideias e proteger os LGBTQ+. Foi assim que surgiram os jornais Gay - já que o principal The Village Voice, recusava-se a imprimir a palavra "gay" nas propagandas da FLG; o Out!; e o Gay Power. A aceitação desses periódicos foi positiva, subindo de um público de 20.000 à 25.000.  


"Zap"


A AAG confrontou às autoridades com uma tática chamada Zap, em que abordavam um político desprevenido e o obrigavam a reconhecer os direitos LGBTQ+. Inúmeros deles foram "zapeados" por diversas vezes. 

Os membros da AAG eram bem ativos, porém pacíficos. Entre suas ações estão o enfrentamento à FPT e o envio de cartas ao prefeito Lindsay. 


O fim da FLV

A FLV teve praticamente seu fim em Nova York após a primeira Parada Gay de Stonewall em 1970, quando vários de seus integrantes saíram dela para formar novos grupos, como a AAG. 


Poder Gay




Já o slogan Poder Gay (Gay Power) originou-se no fim de 1967 com o desafio ao movimento de orientação dos direitos dos homossexuais. Foi Craig Rodwell que defendeu esse slogan, assim como Gay is good (Gay é bom, em tradução literal). 


Orgulho LGBTQ+







"Havia pouca animosidade aberta e alguns espectadores aplaudiram quando uma menina alta e linda andou carregando um cartaz escrito 'Eu sou lésbica'."
–cobertura do The New York Times do Gay Liberation Day de 1970



O Liberation Day, em 28 de junho de 1970, marcou o primeiro aniversário da Rebelião de Stonewall. As primeiras marchas gays americanas foram em Los Angeles e Chicago, depois ocorreram outras em anos subsequentes em Boston, Dallas, Milwaukee, Londres, Paris, Berlim Ocidental e Estocolmo. A marcha de Nova York abrangeu 51 quarteirões, mas, de acordo com informações do The New York Times foram apenas 15. 

Já em 1972, participaram dos protestos LGBTQ+ as cidades de Atlanta, Buffalo, Detroit, Washington, D.C., Miami, Minneapolis, Filadélfia e São Francisco. 

Houve uma mudança importante após a Rebelião de Stonewall. As pessoas iam às ruas para reivindicar seus direitos, não tinham vergonha de serem quem são e os jornais não mais tratavam os homossexuais aquéns da sociedade. Frank Kameny, ativista gay da década de 1950, encabeçou movimentos em busca dos direitos LGBTQ+. Ele disse que a Rebelião de Stonewall foi marcante: 

"Na época de Stonewall, tínhamos de 50 a 60 grupos homossexuais no país. Um ano depois, havia pelo menos 1.500. Dois anos mais tarde, na medida em que pudéssemos contar, eram 25.000."


Juntamente com o Orgulho LGBTQ+, estava a Libertação Gay, termo utilizado para descrever o movimento de gays, lésbicas, bissexuais e transexuais do final da década de 1960 até meados da década de 1970 na América do Norte, Europa Ocidental, Austrália e Nova Zelândia. 





Esse termo também é conhecido por ser um contraponto vivido pela sociedade estadounidense da época, em que questões como gênero e família ainda eram vistos de forma tradicional, ou seja, casamentos heterossexuais e somente gêneros masculino e feminino.

De Dia da Libertação Gay, passou-se a chamar-se de Dia do Orgulho LGBTQ+, como conhecemos atualmente. Termos como "gay" e "sair do armário" ganharam notoriedade até os dias de hoje. 


Conceito

De acordo com o Wikipedia, Orgulho LGBTQ+ é o conceito no qual lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e gays devem ter orgulho tanto da sua orientação sexual, como de sua identidade de gênero. 

O movimento tem três vias princiais, são elas:

1- As pessoas devem ter ORGULHO da sua orientação sexual e identidade de gênero;
2- A diversidade é uma DÁDIVA; e 
3- A orientação sexual e a identidade de gênero são INERENTES aos indivíduos. 


Orgulho

A palavra ORGULHO não foi escolhida ao acaso, mas como contrária à VERGONHA - usada ao longo da história como fim de controle e opressão aos LGBTQ+. Orgulho faz menção ao indivíduo e à comunidade LGBTQ+ como um todo. 


Símbolos


São símbolos do Orgulho LGBTQ+, entre outros: a bandeira do arco-íris, a borboleta, a letra grega lambda; o triângulo preto; mão púrpura; lábris, duplo Vênus; luas; triângulos bissexuais; e símbolo universal transgênero. 



Bandeira do arco-íris: a principal bandeira do movimento, representando a diversidade. Existem outras bandeiras específicas (Em breve faremos um post sobre elas). 


Borboleta: símbolo transgênero que significa metamorfose e transformação.




Lambda: é a décima primeira letra do alfabeto grego, que também vale ao número 30 grego. A letra foi escolhida pela AAG. 





Triângulo preto: antes considerado um símbolo nazista - utilizado para marcar mulheres antissociais - foi reconfigurado para um símbolo lésbico na atualidade.



Mão púrpura: em 31 de outubro de 1969, os membros da FLG e da SIR (Society for Individual Rights) marcharam para protestar contra uma série de artigos de um jornal de São Francisco. Na ocasião, manifestantes jogaram baldes de tinta no edifício do jornal, escrevendo slogans e estampando mãos em vários locais de São Francisco. 





Lábris: a ferramenta era utilizada pela deusa Deméter - Ártemis - deusa da Agricultura. Seus rituais envolviam atitudes lésbicas, o que acarretou em tornar o lábris um dos símbolos lésbicos mais conhecidos. 





Duplo Vênus: símbolo do relacionamento entre duas mulheres. 






Luas: nas cores rosa e azul em degradê, esse é um dos símbolos bissexuais. 







Triângulos bissexuais: figuras geométricas em rosa e azul interligadas é outro símbolo da bissexualidade. 






Símbolo universal trangênero: a figura, em degradê de rosa e azul, faz alusão à diversos gêneros. 



A luta continua


Recentemente (13 de junho), a comunidade LGBTQ+ pode desfrutar de mais uma conquista, com a criminalização da LGBTfobia pelo Supremo Tribunal Federal (8 votos a favor e 3 contra), onde equipara-a ao crime de racismo. Tal lei é de vital importância para proteção dos LGBTQ+.  


Percebemos que a Rebelião de Stonewall e a criminzalização da LGBTfobia foram muito importantes para a comunidade. São 50 anos de luta, mas ela precisa continuar, pois ainda o ódio e a falta de amor são muito presentes na sociedade. Sonhamos com um mundo mais justo e igualitário. 


Essa foi a Semana do Orgulho LGBTQ+. Gostaram? Curtiram? Digam nos comentários. J-J






Por: Emerson Garcia e Thiago Nascimento

sábado, 22 de junho de 2019

É mentira que dono da Bandeirantes culpou a Lava Jato por crise econômica brasileira

Johnny Saad discursando. | BandNews TV

Nesta sexta-feira (21/6/2019) a rede social Twitter foi bombardeada por postagens que acusavam o proprietário do Grupo Bandeirantes de Comunicação João Carlos Saad (ou Johnny Saad) de culpar a operação Lava Jato – responsável por citar, acusar, prender e/ou condenar políticos, empresários e adjacentes – pela crise econômica que o Brasil passa.

Como argumento, uma postagem do deputado federal Paulo Pimenta (PT/SP) foi replicada como ‘prova’ que Johnny Saad responsabiliza a Lava Jato pelas mazelas da nação.




Outras postagens de diversas origens diziam que Johnny disse expressamente que “A lava jato é responsável pela crise no Brasil”. [1] Ele não disse isso, mas quem se importa com os fatos quando se pode usar um boato como se fosse verdade?



Site 247




Revista Fórum




Folha Centro Sul/ Mídia Livre FCS Brasil 



A Postagem


Para conferir mais impropérios digite no Twitter as tags “Dono da Band”, “Saad” e “Grupo Bandeirantes” para ver a confusão irracional. 


A verdade

João Carlos Saad discursou no Fórum BandNews, ocorrido dentro da sede do Grupo Bandeirantes em 12 de junho 2019. [2]  As palavras apocalípticas repetidas por sites e postagens não existiram. Aliás, o próprio vídeo espalhado com a palavra de Johnny é a prova inequívoca que a Operação Lava Jato não foi apontada como culpada pela crise econômica. Ao contrário, ele é favorável ao combate à corrupção. Johnny deixa claro que o equívoco praticado é punir as empresas envolvidas. Agindo assim os funcionários são prejudicados. É só assistir o vídeo!







Em matéria exibida nesta mesma sexta-feira fica claro que a insegurança jurídica nos acordos de leniência provoca o fechamento de empresas e o desemprego dos funcionários. Não se fala, em momento algum, em incentivo de impunidade ou eleger a Lava-Jato como culpada pela crise econômica.










Desde 2016 “esta é a opinião do Grupo Bandeirantes de Comunicação”

Os detratores e mentirosos apontam que a fala de Johnny é casuística e interessada em afins suspeitos, mas ignoram ou não sabem que a opinião da empresa de mídia sediada no bairro do Morumbi é a mesma há quase três anos. Em editoriais exibidos em 2016 e 2017 lidos pelo então âncora do Jornal da Band Ricardo Boechat (1952-2019) deixam claro que o que foi dito na matéria de 2019 e pelo comentário do atual âncora do noticioso Eduardo Oinegue ainda se conserva:










Conclusões finais

Pessoas e entidades de matrizes políticas de esquerda e direita compartilharam uma mentira. Quem é de Esquerda achou que a Bandeirantes está ao lado de Lula, do PT e dos críticos a Lava Jato. Quem é de Direita achou que a Bandeirantes se vendeu por motivos econômicos e que “virou a casaca”.

Nenhum dos dois espectros políticos teve a honestidade de fazer um resgate sobre este fato e muito menos citou os editoriais que mencionei neste texto. Para quem é interessado em esclarecer o que aconteceu pode perceber que o Grupo Bandeirantes está preocupado com o que vem no futuro. Deixa sempre claro que é fundamental punir quem corrompeu e se deixou corromper, mas repudia que o lado mais fraco da corda – os funcionários das empresas envolvidas em investigações – sofra com as atitudes de terceiros.

Não espalhem postagens mentirosas e que só estão com a finalidade de promover seu lado ideológico. Pesquise, incansavelmente, porque uma mentira contada mil vezes provoca estragos maiores que os consertos e retratações. J-J





Por: Layon Yonaller, colaborador especial do JOVEM JORNALISTA

segunda-feira, 29 de abril de 2019

Cálice



Quase todos já escutaram a música Cálice, mas poucos conhecem sua verdadeira história. Escrita por Chico Buarque e Gilberto Gil em 1973, ela foi censurada pelos militares e acabou sendo lançada apenas em 1978, nas vozes de Chico e de Milton Nascimento. Por meio de duplos sentidos e metáforas, a letra, de modo inteligente, aludia à repressão e à violência do governo e se tornou, por isso, um dos mais famosos hinos de resistência ao regime militar.



A censura tinha sido permitida anos antes pelo Ato Institucional nº 5, emitido pelo então presidente Artur da Costa e Silva em 13 de dezembro de 1968. O “AI-5”, como foi conhecido, foi o mais duro dos dezessete grandes decretos emitidos durante aquele regime. Por meio dele, as garantias constitucionais foram suspensas, parlamentares contrários ao governo perderam seus mandatos e foram ordenadas intervenções em municípios e em estados.

Em geral, conhecer a história previne que nós, meros mortais, repitamos os erros do passado. Entretanto, para os deuses do Olimpo judiciário, que se julgam incapazes de errar, revisitá-la parece não ter muita utilidade, visto que, para eles, os conceitos tem uma definição bem particular: “certo” é tudo aquilo que lhes dá na telha fazer; “errado”, aquilo que os incomoda. Por essa lógica especial, errados são sempre os outros. Sempre. Mesmo que para impor isso seja necessário rasgar a Constituição e, consequentemente, profanar a sua própria razão de existir.



E, assim, por meio da instalação de um inquérito eivado de vícios, absolutamente inconstitucional e ilegal na visão da Procuradoria-Geral da República, que já determinou seu arquivamento [1], busca-se justificar o retorno da execução de medidas impensáveis em um regime democrático, a exemplo do temporário atentado à liberdade de imprensa [2], da determinação de bloqueio de contas em redes sociais e da autorização de mandados de busca e apreensão, inclusive genéricos, como claro instrumento para tentar calar críticas ao STF e a alguns dos seus ministros [3].

Será que as oniscientes divindades realmente não percebem que, ao macularem a dignidade dos cargos que ocupam por meio de comportamentos e decisões, para dizer o mínimo, atabalhoadas, estão fazendo por merecer essas inúmeras manifestações de desapreço? Que, quando apenas 24% das pessoas confiam no Supremo [4], ao passo que a reprovação a determinados ministros atinge taxas próximas a 70% [5], seria preciso, para calar os críticos, desligar a internet no Brasil?



Enfim, rezo baixinho aqui para não ser, também eu, contemplado com uma visita inquisitorial da Polícia Federal (a qual, pensando bem, talvez até contribuísse para me dar ainda mais voz). Porque, mesmo que viesse a ser impedido de escrever, eu certamente não deixaria de cantar, a plenos pulmões, ao amigo do amigo do pai: “Afasta de mim esse cálice”. J-J


Por: Regis Machado, auditor do Tribunal de Contas da União (TCU)

quinta-feira, 21 de março de 2019

Quinta de série: Os dias eram assim

Pode conter spoilers!







No Quinta de série desse dia apresento a produção Os dias eram assim. Exibida entre 17 de abril e 18 de setembro de 2017, esta foi uma supersérie produzida pela Rede Globo que contou com 89 capítulos. Apresentada na faixa das 23 horas e com censura de 16 anos, fora escrita por Ângela Chaves e Alessandra Poggi, com direção geral e artística de Carlos Araújo. O elenco teve a presença de Sophie Charlotte, Renato Góes, Maria Casadevall, Gabriel Leone, Cássia Kiss Magro, Marcos Palmeira, Letícia Spiller e Carla Salle. 

Os dias eram assim foi o primeiro produto da emissora considerado como supersérie, ou seja, uma obra com similaridades de novela e série ao mesmo tempo. Esta supersérie assumiu o que se conhecia até então como novela das onze

A supersérie tem como pano de fundo os anos 1970 e 1980, quando o Brasil passava pela chamada ditadura militar. Nela conhecemos o casal Renato Reis e Alice que se apaixona, mas que passa por dificuldades, que envolve o momento político da nação da época. Além dessas dificuldades, eles também devem vencer a fúria e o ódio de Vitor, ex namorado de Alice, que não gosta nada da ideia da aproximação dos dois e arma sempre para separá-los.

A produção é mais que uma história de romance e dificuldade, mas de luta, ideias políticos e um retrato de como a sociedade se portava. Os dias eram assim foi uma obra corajosa por mostrar sem filtros ou edições a realidade da época. E que realidade era essa?! As torturas, exílios, paixões proibidas, tentativa de mudar o sistema, o processo de Diretas Já, o tri mundial da seleção brasileira, a descoberta da Aids etc. 




Desse modo, Os dias eram assim é uma história de romance, mas também de luta, de busca por ideias e de tentativa de mudança política e social. O interessante é que a trama aborda o auge da ditadura militar e o seu fim nos anos 1980 (Ela abrange os anos de 1970 até 1984), com detalhes e informações - vídeos, documentos, mídias e jornais da época. 

Em ODEA acompanhamos o drama de Alice e Renato que se amam, mas que não podem ficar juntos por questões políticas. Idealistas e sonhadores, mesmo com os empecilhos da vida, procuram mudar a realidade ao seu redor, mesmo com a distância e o passar dos anos. Será que esse amor tem o poder de vencer um regime político tão forte?! Será que com o decorrer dos anos e longe um do outro, Alice e Renato ainda se amam? Perguntas que só quem assistiu ou assistirá a supersérie pode responder. 


Personagens


A supersérie contou com duas fases distintas: a primeira de 1970 à 1979 e a segunda de 1979 à 1984. Com o passar dessas fases, alguns atores mudaram e outros se mantiveram. Selecionei personagens marcantes da trama. 




Alice: protagonista da trama. É uma estudante idealista e questionadora que se apaixona por Renato, mas que é afastada dele por vários motivos. 





Renato: também protagonista da trama. É um médico idealista, sempre disposto a ajudar e salvar vidas. Se apaixona por Alice, mas tem que se afastar dela e ir morar exilado no Chile. 





Vitor: vilão e antagonista da trama. É o ex namorado de Alice, que afasta ela de Renato junto com a ajuda de Arnaldo. 





Rimena: médica chilena que se encontra com Renato quando ele vai para o Chile. Os dois constituem uma família e tem um filho. 





Gustavo: irmão de Renato. É estudante, músico, que luta pelos seus ideais e contra a ditadura militar. Em um momento da trama é preso. 





Túlio: jovem idealista e amigo de Gustavo. É contra a ditadura e planejou ao lado do amigo o atentado contra uma construtura que apoiava o movimento da época. 





Vera: viúva e mãe de três filhos - Renato, Gustavo e Maria. É dona de uma livraria em Copacabana. 





Arnaldo: dono da construtora Amianto e apoiador da ditadura militar. É pai de Alice e Fernanda e fará de tudo para que sua primogênita (Alice) se case com o magnata e advogado Vitor. É ambicioso e inescrupuloso. 





Cora: é a mãe do vilão, Vitor. Extremamente oportunista e interesseira. 





Fernanda: conhecida como Nanda, é a irmã mais nova de Alice. Extremamente boêmia, gosta de viver a vida como se fosse seu último dia. Ela adquire Aids em uma época que a doença era pouco conhecida. 


Questões políticas


A trama aborda a questão política, passando pelos Anos de Chumbo. O interessante é que a Globo retratou a época de forma verossímil, ao contrário do que aconteceu na realidade, quando ela apoiou o movimento. Então, essa série é uma forma de retratação do canal. 

Torturas são apresentadas de forma realística. Há bastante sangue, violência e assassinatos desmedidos. Desse modo, a série não é nenhum pouco leve e light. Ela mostra e personaliza os torturadores da época em personagens como Arnaldo (Antonio Calonni), Vitor (Daniel de Oliveira) e Olavo Amaral (Marco Ricca). 

A Globo obteve êxito em criticar o movimento político que, alguns dizem, ter a ver com os dias atuais de nossa sociedade. Há quem fale que os dias eram assim, estão assim e tendem a ficar assim. Então, a produção critica a censura, exílio e a falta de democratização. 

Para amenizar sua posição de apoiadora da ditadura militar, a Globo utilizou o recurso de edição de reportagens em que, claramente, retratava somente um lado das Diretas Já

Outra questão política muito forte são os movimentos estudantis, em que pessoas idealizavam  e eram a favor da democratização do país. 


Questões sociais


A série inicia-se com a comemoração do tricampeonato da seleção brasileira. Um momento de alegria, descontração e felicidade, que contrastava com o que acontecia no país. Seria possível comemorar um título em meio à exílios e torturas?! Não sei como o governo se aproveitou desse título na época, mas deve ter utilizado de forma positiva, de modo a enaltecer a nação e só mostrar seu lado bom. 

Também merecem destaque, as criações artísticas - seja por meio de livros, músicas, televisão ou teatro - que mesmo em uma época de extrema censura, ainda se conseguia produzir bons conteúdos. 

Por outro lado, o movimento de libertação sexual estava em alta, em que as pessoas buscavam o prazer à qualquer custo. Desse modo, a obra discute a bissexualidade e a homossexualidade. 


Aids



Um dos melhores temas tratados pela produção foi a Aids. Na época em que a trama se passa a doença ainda estava em descoberta e não havia os remédios (coqueteis) de tratamento disponíveis. A trama apresentou todo esse drama através da história de Nanda, uma jovem apaixonada pela vida que a viu se transformar com a descoberta da doença. A interpretação e maquiagem do personagem merecem destaque. 

Na época que se passa a história, foi quando perdemos Renato Russo e Cazuza para a doença, dois astros do rock nacional. 


Abertura e trilha sonora


A abertura conta com a trilha sonora Aos nossos filhos, de Ivan Lins e é incrível e curiosamente cantada pelos protagonistas da trama: Sophie Charlotte, Renato Góes, Gabriel Leone, Daniel de Oliveira e Maria Casadevall. Fiquei sabendo disso no último capítulo, quando a trama foi encerrada com eles cantando nos bastidores. 





Achei interessante a iniciativa de atores da trama cantarem a trilha sonora. Seria plausível que outras tramas fizessem o mesmo. 



Audiência


A audiência da supersérie oscilou entre 22,7, 27, 26 e 23 pontos. - números bastante expressivos. Sua média foi de 21 pontos e a trama bateu recorde de 32 pontos

Os dias eram assim foi uma das tramas das onze mais assistida desde que o horário de fora criado. Verdades Secretas detinha esse recorde com 20 pontos de audiência. Já Os dias eram assim 21 pontos. 



Crítica

A trama apresentou uma temática inovadora, mas que não traduziu fielmente sua complexidade nos capítulos. As autoras preocuparam-se mais em destrinchar a história de romance do casal de protagonistas, que relatar com profundidade a ditadura militar. Esses fatos foram tratados de forma simplória, pasteurizada e movidas por clichês que podem, ou não, ser confirmados. 

Contudo, em seus momentos de contextualização histórica  a trama resgatou reportagens, imagens e músicas da época, em uma documentação até que relevante. O pecado encontrou-se quando foi incorporada à trama uma música que somente foi lançada em 1986, Tempo Perdido, sendo que a trama foi até 1984. Mesmo com esse impasse, não poderia deixar de citar a música de Renato Russo tão bem representada por Thiago Iorc. 






Algo que pode ter atrapalhado a trama também foi sua duração (89 capítulos). Há quem diga que não era necessário essa quantidade de capítulos e que ela poderia ser mais enxuta.

Os dias eram assim possui boas cenas, ganchos e cliffhangers, mas não podemos esquecer que trata-se de uma obra de ficção. J-J






Por: Emerson Garcia
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